quarta-feira, dezembro 31, 2008

BRASILEIROS MAIS RICOS TÊM IDH MAIS ALTO DO MUNDO


PNUD - Brasil (Brasília, 22/12/2008)
Rico do Brasil supera o da Suécia em IDH. A elite brasileira lidera lista de 32 países analisados em estudo; os 20% mais pobres têm IDH pior do que os 20% mais pobres de Vietnã e Paraguai.
O IDH do Brasil cresceu e o país é septuagésimo no ranking mundial.

Os brasileiros mais pobres vivem em condições de desenvolvimento humano comparáveis às da Índia, enquanto os 20% mais ricos vivem em situação melhor que a fatia mais rica da população da Suécia, Alemanha, Canadá e França (informações do relatório do PNUD que analisa os números recentes do Índice de Desenvolvimento Humano - IDH) e cita um estudo europeu que conclui que países que atingiram alto desenvolvimento humano (IDH maior que 0,800) nos últimos anos, como o Brasil, ainda têm parte da população sofrendo privações comuns às de países do fim da lista.

No Brasil, a fatia mais rica tem um IDH de 0,997, próximo do máximo (1,000). O número é maior que o IDH do país que encabeça o último ranking obtido, a Islândia (IDH de 0,968); e supera o valor correspondente aos 20% mais ricos de todos os outros países calculados, incluindo o do Canadá (0,967) e o da Suécia (0,959), terceiro e sétimo lugar na lista, respectivamente.
O atual IDH do Brasil, uma média de todo o país, é de 0,807, mas os mais pobres estariam sujeitos a condições correspondentes a um IDH de 0,610, ficando abaixo do segmento dos mais pobres: Indonésia (0,613), Vietnã (0,626), Paraguai (0,644) e Colômbia (0,662). O IDH dos mais pobres brasileiros é comparável ao IDH da Índia (0,609).

"Os resultados mostram que a desigualdade no desenvolvimento humano foi bastante alta, e maior ainda em países em desenvolvimento”, afirma o relatório do PNUD. O texto acrescenta que a América Latina é o continente que apresenta as maiores desigualdades. No Brasil e em países como Guatemala e Peru, a diferença do IDH dos 20% mais pobres para o IDH dos 20% mais ricos só não é superior à de alguns países da África, como Madagascar e Guiné.
O relatório do PNUD ainda destaca outras formas de desigualdade. Segundo o documento, uma criança que nasce em algum dos 20 países do topo do ranking pode viver até os 80 anos, mas se ela nascer nos países de IDH mais baixo, sua expectativa de vida não é maior que 49 anos.

... NOSSAS DIFERENÇAS SOCIAIS ESTÃO SENDO MINIMIZADAS... NO TOPO DO RANKING !!!

Informações coletadas do PNUD pelo Professor (aposentado) de Ecologia, da UFPB, Breno Grisi

terça-feira, dezembro 30, 2008

O Mamam é nosso

Plínio Palhano

O Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam) tem como ação expandir - principalmente no Recife - as manifestações artísticas e culturais que nos atingem na contemporaneidade e, como o nome aponta, na mesma medida, as do modernismo. É um agente importante das informações da história atual e, por conseguinte, supõe-se (ou deveria ser) conectado aos artistas e produtores que a realizam: o Museu não poderá fugir da missão primordial de convergir com essas forças múltiplas da cultura visual e plástica no município.

Desde o seu início, como Galeria Metropolitana de Arte Aloísio Magalhães, a sua participação tem sido fundamental na tentativa - ainda não alcançada - de se entrelaçar à sociedade e à comunidade artística, para que se torne uma instituição viva.

O Museu é nosso, queremos todos vê-lo cada vez melhor com permanentes ações que facilitem a participação dos vários segmentos artísticos e sociais, liderados por uma direção que pudesse consolidar uma estratégia na qual unisse as diversas opiniões para os campos de sua atuação.

O que é fundamental, em um museu, é a voz do artista, a dos que pensam a arte em sua cidade, e a da sociedade que freqüenta as suas salas: sem essa participação, estará sempre em águas mornas, na inutilidade do pretenso elitismo controlador, desprezando os talentos que poderiam acrescentar ao crescimento da instituição.

Portanto, é preciso convocar essas pessoas que podem realizar um museu para encontros, debates, palestras, fóruns, seminários, etc., e dar-lhes uma injeção de ânimo para entrarem em ação efetiva de plena contribuição ao Mamam, como é a tendência universal da prática dos museus, no mundo desenvolvido, porque, acima de tudo, o museu é a casa do artista e do público.

Não se pode concretizá-lo sem essa participação democrática, que deveria agir com plena liberdade, autonomia cultural, sem a subserviência a curadores que tentam influir (e influem) em outras regiões, cumprindo, os daqui, o papel de discípulos, enquanto aqueles se aliam aos grandes e poderosos internacionais que lhes ditam o que devem fazer e pensar em seus países: constituem a hierarquia da curadoria, que inicia com os curadores municipais; em seguida, os estaduais, os federais, os continentais e os intercontinentais...

Nós entendemos que deve haver uma oxigenação cultural com outras regiões, outros artistas e curadores, isso é saudável e natural. Ali, estiveram em exposição obras de grandes nomes internacionais, como as gravuras de Picasso; as de Goya; as de um dos nossos maiores gravadores nacionais, Gilvan Samico; as esculturas de Rodin; as pinturas de Monolo Valdés; e as de Jean-Michel Basquiat, e a participação de curadores que contribuíram, nessas amostras, com mérito. Mas o que é prejudicial são as oxidações nocivas, paralisantes, da hegemonia de curadores que não acompanham as expressões e particularidades da história da arte local e do Nordeste. Basta o bom senso para ter uma visão aberta e definir o caminho do meio para a ação do Mamam.

Plinio Palhano é artista plástico.
ppalhno@hotlink.com.br

segunda-feira, dezembro 29, 2008

LESLIE CARON - A Feia Mais Bonita do Cinema



Elpídio Navarro

Tem uma marchinha que diz 'eu hoje amanheci pegando fogo, fogo...", mas que fogo que nada, o que eu ando pegando mesmo de uns tempos pra cá é nostalgia, saudade de momentos que não voltam mais. E agora a televisão a cabo proporciona com mais assiduidade esses momentos, muitas vezes já totalmente esquecidos e que, de repente, ressuscitam mexendo com nossas emoções. Tudo através do cinema e da música.

Hoje assisti à "Sinfonia de París", filme de 1951, que vi pela primeira vez em 1952, acho. Lá se foram 56 anos. Na época era normal ter tesão por uma mulher, mesmo considerando-se uma idiotice pensar nela, a gente estando no Cinema Plaza e ela em Hollywood. Mas era gostoso pensar, rever na tela, ouvi-la cantando, imaginar coisas... E que coisas!

Leslie Caron foi uma dessas mulheres. Não sei se por ser diferente, pois chegava a ser feia, não sei se pelas belas coxas que exibia dançando, pois era bailarina, não sei se até por ser impossível para mim como mulher.

Disse que ela era feia, mas não era, era linda mesmo sendo feia. Tinha alguma coisa nela que a tornava irresistível. Talvez hoje pudesse dizer que era o charme (naquela época ninguém usava o termo), mas, ao que parece, charme é abstrato, e o que eu via nela nela era concreto. O olhar, a voz, o sorriso ou mesmo as coxas. Eu não tinha a mínima capacidade de julgar a atriz, a bailarina ou a cantora. Só a mulher.

Hoje, mesmo levado pela emoção de revê-la, já posso afirmar que ela foi uma bailarina excepcional, cantora e atriz. Agora, aos 77 anos, apareceu pela última vez em um seriado para a TV, em 2006. No seu último filme, em 2003, ainda mostra, de alguma forma, aquele charme de outrora. (22-12-2008)

Elpídio Navarro é professor universitário, dramaturgo e diretor teatral, além de editor do www.eltheatro.com

sábado, dezembro 27, 2008

Considerações de final de ano

Hugo Caldas

Pois é, o ano da graça de 2008 está indo embora. Ou já se foi, quando porventura estas mal traçadas vierem a lume. Acho até que passou mais rápido que os outros que já vivi. Ofereço então essas considerações, a fim de uma reflexão mais profunda por parte dos meus tres leitores. Façamos, portanto, uma retrospectiva do que, por artes do demo, nos chamou a atenção neste ano que se finda.

Diferenças Parecidas

Diariamente me deprimo com as notícias de Pindorama. Cuido por exemplo, que nós, via de regra, criticamos com mais virulência tudo o que ocorre nesta terra em que se plantando tudo dá, principalmente quando nos comparamos aos países de primeiro mundo, a terra do Tio Sam, por exemplo, que tanto macaqueamos.

Vejam quanta semelhança:

Recentemente vimos pela TV, soldados do exército e dedicados voluntários roubando donativos provindos de todo o país e que seguiriam para as famílias de Santa Catariana, atingidos pelas enchentes. O que evidentemente nos indignou a todos.

Lá, na terra do Tio Sam, durante a tragédia do furacão Katrina, em Nova Orleans, milhares de doações que deveriam ter sido entregues às famílias atingidas, também desapareceram. Ninguém sabe ninguém viu. O mesmo aconteceu recentemente no Texas, agora em época natalina, quando centenas de milhares de doações que iriam para instituições para ajudar famílias carentes, foram literalmente roubadas.

O governador da minha pequenina e heróica, apesar de cassado, continua enrolando no poder. O governador corrupto de Illinois, acusado de tentar vender o cargo vago de senador, pela eleição do Obama, continua no exercício do cargo, mandando e desmandando, no melhor estilo tupiniquim, mesmo após o escândalo ter sido descoberto.

Vimos o esquema de mais 50 bilhões de dólares do espiroqueta da bolsa de valores de Nova Iorque, o tal Bernard Maddoff. O malandrão, o cérebro da picaretagem piramidal, no entanto será preso, devendo se apresentar às Cortes algemado pelas mãos e pés vestindo berrante macacão laranja. Já por aqui qualquer Daniel Dantas da vida termina por defenestrar delegados da Polícia Federal. Não é à-toa que que na cultura dos filmes B, americanos os bandidos sempre se refugiam no Rio.

O que intento dizer é que em todo país do mundo, há corrupção. Seja na política, no setor financeiro, na saúde ou na educação. Existem até os que roubam biscoito de menino.

Estava eu em gozo de merecidas férias nos EUA na década de 70 quando um figurão do sistema presidiário do Estado da Florida foi flagrado com a boca numa botija de milhões de dólares. O capadócio vendia alvarás de soltura para criminosos endinheirados. Preso e processado, arranjou um alvará para si próprio. Um belo dia sem conseguir provar a sua irreprochável conduta, reuniu a imprensa no seu escritório para uma coletiva. No meio da entrevista sacou de dentro de um envelope um revolver e atirou na própria boca. Existe um video no YouTube. Pois é, há disso também. Pena que a moda não pega por aqui.

Dadas as diferenças, proporcionalmente, percebo que as semelhanças são inúmeras.

O caso da pichadora

"A dificuldade dos jovens artistas para mostrar o que fazem é enorme: estão fora do mercado, encontram poucos lugares para expor, para debater com outros artistas e com a crítica."

Foi por essas e outras que lá em São Paulo, Caroline Pivetta (belo sobrenome) da Mota, de 23 anos, entrou no prédio da Bienal com um grupo de outros desordeiros e entendeu de pichar paredes que estavam em branco. Foi em cana. Comoção geral.

Arte? Que Arte? Isso de pichar a propriedade alheia é puro vandalismo. Encontrou a indigitada moçoila inúmeros defensores. Até o Jabor, a quem admiro, saiu em sua (dela) defesa.

Diz ela: "Estava me manifestando contra (sic) os desfavorecidos, os que não têm acesso àquela coisa toda". Manda bem a jovem meliante: "Tanto grafite quanto "picho" são underground, coisa do fundão. Não são feitos para exposição em galeria. A parada que eu faço é na rua, é para o povo olhar e não gostar. Uma agressão visual". Ao sair da cadeia a energúmena ameaçou voltar ao saudável ato de danificar a propriedade alheia com sua arte! Pichação e grafite são transgressores. Eu mesmo tive o muro da minha casa pichado dois dias após ter sido pintado para o natal. Respeito é bom e eu gosto.

E para finalizar, mas não menos importante imploro aos meus amigos que não me façam receber, ler, ouvir e pronunciar palavras e expressões tais como:

1) "Amo de paixão"

2) "Minha esposa" e sua variante, "Meu esposo"

3) "Legal" (para designar algo bom, bonito, etc) Talvez seja um caso perdido. Contudo poderá ser aceito se algo que for designado ruim, feio, etc seja "Ilegal".

4) Locutores da Globo pronunciando "respónsabilidade". É de matar!

5) Locutores da Globo e adjacências se referindo "ao Pernambuco".

6) Pessoa que ao cometer pequeno erro no meio de uma conversa, diz "minto" antes de voltar a falar.

7) Baiano dizer “É massa!”

8) Receber aqueles PPS debilóides com musiqueta idem contando geralmente uma história edificante, com citações de Chico Xavier, Ghandi, e outros personagens menos votados pela plebe ignara.

9) A palavra "Tipo"

10) Pessoas que mandam "Um beijo no coração". Melhor fuzilar!

Feliz 2009.

hucaldas@gmail.com
newbulletinboard.blogspot.com

sábado, dezembro 20, 2008

Do sapato, sua origem, sua serventia

Hugo Caldas

O sapato é uma peça do vestuário que tem por finalidade proteger os pés das pessoas. Em inglês a palavra shoe deriva de uma outra palavra do inglês arcaico, sckh que, por sua vez, provém do latim obscuro, vindo a significar oculto, ocultar, guardar os pés.

Os egípcios dominavam a arte de curtir o couro e eram eram hábeis confeccionadores de calçados. Seus escravos faziam sandálias de couro, palha, papiro ou de outra fibra qualquer de palmeira. No entanto, no antigo Egito, era bastante comum as pessoas andarem descalças carregando as sandálias penduradas ao pescoço. Usavam-se calçados apenas quando absolutamente necessário. Os nobres, entretanto estavam sempre calçados com sandálias coloridas. Até o grande Faraó Tutancamon usava sandálias e sapatos de couro de porco, cravejados de enfeites de ouro. Evidências, entretanto mostram, que os sapatos foram inventados, no final do Período Paleolítico.

Na Mesopotâmia eram comuns os sapatos e sandálias de couro cru, amarrados aos pés por tiras do mesmo material. Os coturnos eram entrançados nas pernas e representavam o símbolo da alta posição social do dono dos pés que os usavam.

Na Grécia Antiga, chegaram a lançar moda, como a de modelos diferentes para cada pé, direito e esquerdo. A maledicência entretanto afirma que um administrador da cidade de Atenas, meio sobre o détraqué, estando de pileque calçou inadvertidamente os pés trocados. Daí a tão propalada moda.

Na Roma Antiga, o calçado indicava a classe social. Os cônsules usavam sapatos brancos, os senadores sapatos marrons, presos por quatro fitinhas pretas de couro atadas a dois nós, e o calçado tradicional das legiões de César era a bota de cano curto que evidenciava os dedos.

Na Idade Média, tanto homens como mulheres costumavam usar sapatos de couro curtido, fétidos, porém abertos, de cores berrantes e que tinham a forma semelhante ao das sapatilhas de balé.

Nas regiões frias do planeta, o mocassim, criação dos indígenas norte-americanos, e as botas russas de cano longo, são até hoje confeccionados para a devida proteção dos pés. Nos países mais quentes a sandália, bem como o chinelo, são evidentemente os mais usados. Na Holanda, ainda é comum o uso do popular tamanco de madeira feito em uma só peça.

Na Europa do século XIV, a moda ditava calçados de bico tão fino e longo, alguns com até 50 cm de comprimento, que para conseguir caminhar, era preciso prendê-los, com um cordão de seda, à coxa ou à cintura. Haja Deus! De certa forma esse tipo de sapato deve ter inspirado nossos atuais designers que fizeram renascer algo parecido com o tal bico fino, ótimo para matar baratas, encurralando-as nos cantos da parede. Já na França de Henrique IV, os sapatos eram tão estreitos que, para conseguir calçá-los, os elegantes da época tinham que ficar pelo menos duas horas com os pés mergulhados em salmoura gelada para que encolhessem.

Nas cortes venezianas, a moda eram os calçados perpetrados em cima de plataformas altíssimas. Tão altas que se tornava praticamente impossível caminhar com eles nos pés, a não ser com a ajuda de criados que seguravam as dondocas pelos sovacos e assim as arrastavam pelos insondáveis caminhos e salões da cidade.

Mas o cúmulo dos cúmulos eram os microscópicos sapatos usados pelas mulheres chinesas, até recentemente. Medindo cerca de 15 cm, eles obrigavam as coitadas a reduzir drasticamente o comprimento do pé. Uma tortura. Vá que se goste, que nem eu, de pés pequenos, mas aí já é exagero. Para o sucesso da empreitada, as chinesas, desde o nascimento, tinham os pés amassados sobre um cilindro de metal e, então, firmemente enfaixados até quando Deus dispusesse.

Nas Filipinas, a ex primeira-dama Imelda Marcos, viúva do ditador Ferdinando Marcos está lançando sua própria grife. Ela sempre foi conhecida pela imensa coleção de sapatos, estimada em mais de 3.000 pares variados. Enquanto colecionava sapatos, o marido governava o país dominado pela pobreza. O ditador foi defenestrado e no exílio Imelda comeu do pão que o diabo amassou. Agora de volta às Filipinas, com essa grife, ela pretende vender as peças da sua coleção particular por preços que variam entre US$ 20 e US $100, valores bem modestos mas que poderá ajudar a ex primeira-dama a colocar na mesa o leite das crianças.

Todos nós temos na vida, um caso a ser contado e relembrado, sobre sapatos. Às vezes histórias fantásticas povoam o nosso imaginário. Às vezes simples e doces lembranças. Quando completei quinze anos, o meu pai me presenteou com o mais recôndito sonho de consumo que povoava a minha jovem mente. Um sapato Fox. Pretinho retinto, bem confeccionado, confortável, dava ao pé uma elegância ímpar. Ótimo para dançar nos inúmeros "assustados" da época. Brilhava ao sol e às luzes da noite. Jamais esqueci o velho companheiro de guerra. Veio o ditoso mimo tomar o lugar de um horroroso sapato TANK, com chapas de metal no solado, que usávamos para irmos às lides escolares. Ainda hoje relembro com saudade o meu Fox. Era pau pra toda obra. Combinava com qualquer roupa e era "chic" usá-lo. Nunca que eu sofri de aberrações tais como calos e joanetes. Era o mesmo que pisar nas nuvens. Companheiro de todas as horas, espécie de conselheiro, não permitindo jamais que as minhas pobres canelas tremessem em situações constrangedoras.

Lé com lé, cré com cré, um sapato em cada pé, assim cantava o menestrel!

Nos dias de hoje, o calçado transcendeu sua finalidade inicial que é de proteção aos pés e passou a servir como adorno, acessório de moda, e bem mais recentemente lá pelas bandas de Bagdá, transformou-se em arma usada, nos momentos de ira, contra presidentes outrora poderosos, em visitas surpresas a paises que acabaram de destruir. Deve ser reconfortante quando o alvo é atingido.

Sapatadas em presidentes! Se a moda pega pelas bandas de cá não sei, mas bem que eu gostaria!



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quinta-feira, dezembro 18, 2008


OS HERÓIS ESTÃO CANSADOS


No fim do mês de novembro próximo passado, faleceu aos 86 anos, Charles “Charlie” Brown, piloto do B-17 “Ye Old Pub”, que foi salvo pelo ás da Luftwaffe Franz Stigler no Natal de 1943. Brown ficou famoso pela história, aqui relatada em postagem recente, vivida durante a Segunda Guerra Mundial à bordo da sua agonizante B-17. Brown e Stigler se reencontraram no Canadá em 1986. Stigler ainda voava um Messerschmitt 109 em shows aéreos. Os dois se tornaram grandes amigos, até o falecimento de Stigler em março deste ano.

Em março deste ano também faleceu a esposa de Brown, Dolores. Charlie sucumbiu a uma doença cardíaca pouco tempo depois.

“Ele não era do tipo que desiste fácil, mas ficou perdido sem ela”, confessa uma de suas filhas.
(pela transcrição - H.C. - Acima, foto do Cel Brown)

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Tião Boca de Caçapa


Elpídio Navarro

Existem personagens reais ou inventados, de cujas façanhas a gente nunca esquece. As aventuras do abestalhado (nem tanto) Tião Boca de Caçapa, eram contadas por Mirócene Amorim, companheiro de muitas jornadas teatrais. Biró, como era chamado pelos mais próximos, tinha um vozeirão daqueles que a velhinha surda que se sentava na última fila do teatro, acordava toda vez que ele falava. Ele se vangloriava ao dizer: "Posso não ser um Paulo Autran, mas todo mundo ouve o que eu falo num palco". E eu acrescento: em qualquer lugar! Já com problemas sérios de saúde na última vez que nos encontramos, perguntei o que sempre se pergunta: Como vai você? E com o mesmo vozeirão de sempre foi taxativo: "Com um pé na cova!" Faleceu algum tempo depois.

Mas as histórias que Biró contava de Tião Boca de Caçapa eu sempre lembro, pela graça, pelo inusitado e até mesmo pelo nome/apelido que arranjou: colocava, de uma vez, cinco picolés na boca e conseguia chupá-los ao mesmo tempo. Era como uma caçapa de mesa de sinuca. Não lembro ao certo onde residia pois a memória falha. Mas era numa cidade dividida por um rio.

Certa vez, no período chuvoso, era preciso transportar uma mesa de bilhar para o outro lado da cidade. O dono do pesado objeto não encontrara nenhuma caminhoneta nem carro-de-boi para fazer o serviço, devido as grossas chuvas que caiam e o aumento do volume da água e correnteza do rio. Tião Boca de Caçapa apresentou-se como solução, dizendo que levaria a mesa na cabeça. Todos duvidaram. O interessado no transporte relutou um pouco mas, sem outra saída, resolveu topar a parada. Boquinha da noite, já havia tocado a Ave Maria no rádio, lá vai Tião Boca de Caçapa botando a tal mesa, coberta por uma lona, na cabeça protegida por um travesseiro e ajudado por mais quatro homens. Disse "Volto já já..." e desapareceu no escuro da noite. Deu mais de dez horas e nada de Tião voltar. Todos já estavam preocupados com o destino de Tião, quando avistaram um vulto se aproximando: era Boca de Caçapa de volta ainda com a mesa na cabeça, todo molhado e pedindo ajuda para tirar aquele incômodo de cima dele. "O que houve? O rio não deu passagem?", perguntaram. "Não, até que foi fácil. O ruim foi lá porque o endereço estava fechado e não tinha ninguém para ajudar descarregar. Então trouxe de volta..."

Tião morava sozinho num casebre até perto da farmácia, onde toda noite um grupo se reunia para jogar gamão na calçada, por conta da iluminação mantida pelo boticário na fachada do seu estabelecimento. Tião tinha sido amigado mas a mulher tacara-lhe um par de chifres fugindo com um boiadeiro de mudança para outra cidade. Ele achou melhor não ir atrás, preferindo ficar com uma cabrita que criava no fundo do quintal e não mais confiar em rabo de saia. Tião toda noite ia pilungar o jogo de gamão, mesmo sem entender nada do assunto. Gostava de espiar quem dava mais pontos com o bozó mas não entendia quando um outro resultado valia mais que dois seis. Os jogadores não gostavam das constantes perguntas dele sobre o jogo e um deles resolveu desafiá-lo com o objetivo de afastá-lo do recinto: "Tião, eu digo que você é macho mesmo se for agora ao cemitério, arrancar um cruz de um túmulo e trazê-la até aqui!" E os outros acrescentaram: "Vai nada, não tem coragem!" "E se aparece uma alma?" "Uma empreitada dessa é para quem tem culhões roxos!" E outras provocações mais. Tião Boca de Caçapa ficou por ali, desconfiado, sem dizer nada, foi se afastando e deu no pé. Gozação geral: "Até que enfim nos livramos dele..." disse alguém. O jogo continuou e depois de uns vinte minutos uma cruz suja de terra cai em cima do tabuleiro de gamão, jogada por Tião, dizendo: "Eu não sei ler não, mas tem o nome do dono escrito aí na cruz. Devolvam depois."

Não satisfeitos com a história da cruz, os parceiros do gamão resolveram fazer outra falseta com Tião, como troco ao susto que levaram. Propuseram um encontro na sexta-feira, à meia-noite, na porta do cemitério, para fazer uma oração pelos mortos. Todos iriam, eram seis. Tião topou. Nessa mesma noite, após todos terem ido para suas casas, foi até ao quintal agradar a cabrita já acostumada com sua visita e notou, não muito longe, um movimento de pessoas na parte de trás da casa do alfaiate. Imaginando tratar-se de ladrões querendo roubar, com cuidado aproximou-se. Eram seus desafiantes experimentando uma fantasia de "alma", um manto branco, capuz com abertura pros olhos. Entendeu tudo. Foi para casa e de um lençol branco fez a mesma vestimenta. Na sexta-feira, um pouco antes da meia-noite os seis apreciadores de gamão chegaram próximos ao cemitério, vestiram-se com as fantasias e esconderam-se enquanto esperavam a hora. Só não sabiam que Tião havia chegado primeiro e feito o mesmo. Quando deu meia-noite e Tião na aparecia, resolveram sair do esconderijo em fila indiana para esperá-lo no portão do cemitério. Quando chegaram, Tião que havia entrado no último lugar da fila, bateu no ombro da "alma" que estava à sua frente e perguntou: "Nós somos quantos?" Ouve como resposta: "Seis, cara! Por que?" Ao que Tião responde: "Por que eu estou contando sete..." Constatada uma "alma" a mais, todos disparam de volta sem olhar pra trás, inclusive Tião Boca de Caçapa que, por sua vez, correu para casa satisfeito, pensando fazer uma nova visita à sua cabrita de estimação.(15-12-2008)

Elpídio Navarro é professor universitário, dramaturgo e diretor teatral, além de editor do www.eltheatro.com