sábado, julho 29, 2006
Recuerdo 10 - Sargento Machado, Aragarças, Vôo 254, Planeta Marte e Quejandos
Há apenas alguns meses trabalhando quando um certo dia, colega avisa baixinho, ao ouvido, “o 254 voou no pau.” Estupefação, alvoroço. Era o que sabíamos. O 254 era um vôo originado no Rio de Janeiro às 10.00 da noite que chegava ao Recife às 4.40 da manhã do dia seguinte. Ao cabo de algumas horas descobrimos com certo alívio, que não fora um acidente. O Constellation da Panair, Vôo 254, havia sido seqüestrado, juntamente com um mono-motor particular, por rebelados da Força Aérea e tomado o rumo de Aragarças, Goiás. Os insurretos pretendiam bombardear os palácios Laranjeiras e do Catete, no Rio, e ocupar as bases de Santarém e Jacareacanga, no Pará, entre outras. Completa loucura.
Na realidade, nem o bombardeio aos palácios, nem a ocupação das bases chegaram a acontecer, e a revolta ficou restrita a base de Aragarças. A rebelião durou exatas 36 horas. Seus líderes fugiram nos mesmos aviões para o Paraguai, Bolívia e Argentina, somente retornando ao Brasil no governo de Jânio Quadros. Dois desses líderes se tornaram famosos. Principalmente pela reincidência, pela insistência. O Major Haroldo Veloso e o Capitão José Chaves Lameirão antes de Aragarças lideraram uma outra revolta em Jacareacanga. Todos os rebelados foram beneficiados pela anistia concedida logo depois pelo Congresso, por solicitação expressa do presidente Juscelino.
Fins de 1960. Boa Viagem, praia aprazível transformando-se em bairro de classe média alta. Morávamos todos da mesma turma da Panair em um apartamento com governanta e tudo a que tínhamos de direito. No andar de cima morava o sargento Machado, da Aeronáutica. Sujeito simpático, boa pinta, vivia com a família. Ao mesmo tempo em que de certa forma “protegia” uma lourona moradora do apartamento junto ao nosso, comissária de vôo da Real Aerovias.
Místico. Lia livros espíritas e gostava de conversar sobre discos voadores. Disse haver feito várias viagens ao planeta Marte. Certa vez fora convidado a conhecer como eram construídas as estradas de rodagem. As BRs, de lá. Primeiramente os marcianos delineavam o trecho onde seria a rodovia. Depois com o auxilio de possantes máquinas voadoras revolviam todo o terreno. Em seguida outras máquinas mais poderosas sobrevoavam o trecho a baixa altitude empregando um alto teor de calor até o terreno selecionado ficar completamente incandescente e logo a seguir, no resfriamento, tornar-se em vidro espesso. Por causa dessas conversas, bastante agradáveis por sinal, eu tive uma experiência chamada “desdobramento”.
De acordo com a minha mulher, espiritista juramentada, o "desdobramento acontece quando você se descola do seu corpo podendo, entretanto, voltar. São supostas experiências fora do corpo realizadas por qualquer um, em estado de vigília, acordado, via meditação ou técnicas de relaxamento."
Explico: estava eu deitado de bruços na minha Patente Faixa Azul, após o almoço, nem dormindo nem acordado, olhando as coluninhas do espelho da cama que em dado momento tornaram-se enormes como as colunas dos templos gregos. Ato contínuo, sinto que deixo o meu corpo, flutuo até o forro olho para baixo e me vejo deitado na cama. Isso durou muito pouco tempo mas o suficiente para sentir que algo estranho estava acontecendo. Voltei digamos, ao normal, e não falei com ninguém a não ser com o sargento Machado. Não recebi explicação convincente mas ele aproveitou para falar mais uma vez sobre discos voadores, espiritos superiores, Planeta Marte, Ramatís e quejandos. Telefonei para o meu pai. Precisava da sua ajuda sendo ele também espiritista. Nessa época os telefonemas interurbanos não eram essa maravilha de hoje. Era aos berros. Seria mais fácil para o meu pai ouvir lá em João Pessoa os meus gritos do que a conversa pelo fone. Expliquei o tal episódio mas ele simplesmente perguntou se eu não havia andado bebendo um pouco demais...
Mas tudo isso foi somente para situar a pessoa do sargento Machado, heroi do presente recuerdo, que apesar de místico e muito boa gente, soube agir com firmeza quando assim se tornou necessário.
Uma noite nos aparece, assim saído do nada, um ex-militar, remanescente de Aragarças completamente embriagado, cabelos desgrenhados, olhos no melhor estilo Jânio Quadros, (um olho virado para o leste e o outro para o oeste) tirando o sossego do prédio, querendo porque querendo subir para o apartamento da lourona, a quem parecia conhecer muito bem. Coisa de "antigo caso desmanchado". A moça não denotava nenhum interesse em descer e muito menos, atender aos lancinantes e pungentes apelos do xaroposo ex-milico, que variando dos berros aos soluços, lhe implorava que viesse encontra-lo.
Entra em cena, devidamente encorajado pelos moradores, que a essas alturas estavam em suas janelas a assistir ao deplorável espetáculo, o sargentão, que logo tirou a camisa a fim de intimidar com seu físico o elemento insuportável. Não surtiu o mínimo efeito. Apelou então para a "diplomacia".
- Olha aqui, meu amigo....
- O "amigo" berrava, a voz pastosa: amigo porra nenhuma, eu preciso falar com a Angelina...
- A Angelina está voando, de serviço.
- Eu não admito...quero a Angelina...olha aqui...seu merda...sabe com quem está falando?
- Sei. E por lhe conhecer muito bem, quero que vá se retirando...
- E sou o capit... não conseguiu terminar... Levou um soco tão bem aplicado na boca que o sangue espirrou manchando a camisa amarela enquanto desmaiava.
O sargento então o arrasta pela gola até o portão, pára um taxi que passava sacudiu aquele molho de gente dentro e diz ao motorista..."leva esse canalha pra qualquer lugar...de preferência a delegacia de policia."
Santo remédio. Nunca mais fomos importunados pelo "heroi". Nem nós nem a Angelina que logo após o acontecido iniciou um romance com um dos dos nossos colegas de trabalho e vivia em nosso apartamento. De minha parte, constatei com certo alívio, que houvesse acontecido realmente a "revolução" de Aragarças, onde estaríamos nós, amarrando o nosso jumento!
terça-feira, julho 25, 2006
A OUTRA ONDA DO TSUNAMI
Esta matéria saiu em prestigiado jornal pernambucano logo após o desastre em 2004.
O texto me chocou profundamente pela terrível falta de respeito para com os mortos.
Na eventualidade desse novo Tsunami (com menos mortos) será que o desrespeito continua? Quem tem um "divulgador" desse tipo não necessita de opositores.
Que os Deuses tirem por menos as insanidades vomitadas como se verdades fossem.
Hugo Caldas
A OUTRA ONDA DO TSUNAMI
Carlos Pereira
Dia 26 de dezembro de 2004. Uma notícia abala o mundo. Um gigantesco maremoto atinge vários países da Ásia provocando a morte de mais de 145 mil pessoas. Índia, Tailândia, Sri Lanka e, principalmente, a Indonésia com mais de 94 mil mortos, foram os países mais atingidos. O fenômeno conhecido como tsunami é uma onda gigante gerada por distúrbios sísmicos. A causa geológica deste tsunami provém do movimento de placas tectônicas situadas no Oceano Índico e em Sumatra, no noroeste da Indonésia. A colisão entre elas provocou uma ruptura. Ao longo da fissura de cerca de 1.000 km de comprimento gerou-se um deslocamento vertical de cerca de dez metros promovendo, assim, o tremor.Na medida em a onda tsunami se aproxima do litoral, ela diminui de velocidade porque a água fica mais rasa e, com isso, a altura da onda aumenta significativamente podendo chegar à praia com até 20 metros.
As conseqüências do tsunami foram devastadoras. Fome, doenças e desolação. Ajudas humanitárias internacionais chegam numa velocidade menor do que se necessita. Mas por que Deus permitiria uma tragédia dessas proporções?Partindo-se do princípio de que Deus é a suprema justiça e de que nada ocorre por acaso, poderemos especular algumas razões.
Uma outra onda, de ordem espiritual, está, certamente, na origem dos efeitos do tsunami. Os Espíritos Superiores nos esclarecem que as chamadas catástrofes coletivas são provenientes também de resgates cármicos coletivos. Milhares de espíritos comprometidos por maldades provocadas em outras existências são colocados pela espiritualidade numa mesma situação encarnatória e, no tempo aprazado, são submetidos a tais expiações. Outra explicação diz respeito ao processo pelo qual o nosso planeta vem atravessando que é o da regeneração social. Algumas informações transcendentais dão conta que muitos espíritos estão tendo as suas últimas oportunidades encarnatórias na terra e, caso não aproveitem devidamente, serão expurgados para outros planetas de um nível moral mais atrasado que o nosso. Esta depuração será cada vez mais crescente e a humanidade não deveria se surpreender com outras catástrofes coletivas e que representariam, tão-somente, etapas da seleção espiritual que se efetua. Para aqueles que se esforçam no melhoramento interior nada a temer. Como bem exemplificou Jesus na Parábola do Bom Samaritano, não será pelo vínculo religioso que professamos ou pela posição social que reservaremos um futuro tranqüilo, mas pela promoção do bem sem segundas intenções.
(Jornal do Commercio – 23-01-05)
Nota: Carlos Pereira é presidente da Associaçãode Divulgadores do Espiritismo de Pernambuco,ADE-PE. (www.ade-pe.com.br)
quinta-feira, julho 20, 2006
PIOR FOI A EMENDA
Elpidio Navarro
No início dos anos cinqüenta a festa de Nossa Senhora das Neves era um dos eventos mais importantes de João Pessoa, não só por tratar-se da comemoração da data da nossa Santa Padroeira e da fundação da Cidade, conseqüentemente do Estado da Paraíba, mas também pela tradição de costumes que existiam, mantidos só naquele período, que ia do dia 27 de julho a 5 de agosto. Tudo acontecia na Rua Nova, já na época denominada de General Osório, entre o Grupo Escolar Thomaz Mindelo e a Catedral Metropolitana, rua de largas calçadas bem afeitas a passeios, à colocação de barracas para vender cachorro-quente, aos cercados para os jogos de argolas, roletas e tiro ao alvo. Também eram construídos os pavilhões por associações beneficentes, para servir bebidas e comidas, realização de leilões e concursos de rainhas da festa, com o lucro destinado a uma causa social. Indo em direção à Catedral, a última quadra do calçadão do lado direito era destinada ao passeio do quem me quer, onde as jovens de família desfilavam de braços dados, flertando com os rapazes de família que ficavam, a maioria com seus ternos brancos, formando um cordão de isolamento à beira da calçada. Ali surgiam os namoros, os fuxicos, os rompimentos amorosos e ninguém pagava nada para participar. Já ao lado esquerdo da Catedral ficava o local denominado a bagaceira, reservado às moças e rapazes que não eram de família, ou seja, o pessoal mais pobre, as piniqueiras, soldados de polícia, guardas noturnos, cabeceiros etc., não faltando também os rapazes de família que para lá se dirigiam após a hora do recolhimento das moças de família, que da bagaceira só tinham notícias ou uma visão geral de cima da roda-gigante. Os rapazes de família iam à procura de aventura sexual com alguma empregadinha e tinham, geralmente, a compreensão das suas namoradas, moças de família, que, àquela época, ainda casavam virgens.
Uma outra tradição bem forte eram os jornais da festa. Entre eles O Gongo, pelo qual eram responsáveis Arlindo Delgado, Genildon Gomes, José Morais Souto, Valdez Silva e eu, entre outros. O jornalzinho publicava tudo: fofocas, aniversários, humor, pensamentos… Nessa de pensamentos foi publicado num dos seus números: “Mais vale uma velha do que um balaio de brotos”, atribuído Biu Bate-Bate, que era o apelido de Severino Alves de Andrade, estudante de Direito, noivo de um moça mais velha do que ele, porém alta funcionária federal. Dia seguinte à publicação, já esperávamos uma reação, possivelmente até violenta, dele. E não deu noutra: estávamos no jornal, eu e Arlindo Delgado, quando avistamos Biu Bate-Bate vindo em nossa direção. Não contamos conversa: nos escondemos por trás das impressoras. Na redação estava Humberto Melo, também estudante de Direito, que não se dava bem com o esperado visitante e que por uma infeliz coincidência havia nos pedido para publicar uma notinha de aniversário, a qual estava redigindo numa das máquinas de escrever. Biu parou na porta da redação, olhou para Humberto e desafiou:
- Só podia ser coisa sua, seu cabra safado! Agora venha para a rua apanhar. Só não vou lhe quebrar a cara aí porque eu, como estudante de Direito, conheço as leis: não posso invadir recintos particulares. Mas aqui no meio da rua eu acabo com você! Venha se é homem!
Humberto Melo atônito, sem saber o que estava acontecendo e nem por que estava sendo desacatado, não se mexeu na cadeira onde estava sentado, não falou uma só palavra. Biu continuou ameaçando, mas ao notar que estava chamando a atenção das pessoas que passavam na rua, retirou-se dizendo que iria pegá-lo noutra ocasião. Saímos da nossa toca e ainda encontramos Humberto sob o efeito da injusta agressão sofrida. Quando nos viu, perguntou ainda com certa dificuldade:
- O que foi que eu fiz?!… O que foi que houve?!…
- Do quê você está falando, Humberto?
Perguntou Arlindo fingindo surpresa, enquanto eu me esforçava para não rir. Humberto relatou o acontecido e Arlindo, mais um vez, demonstrava ser um bom ator:
- Que absurdo, Humberto! A gente não ouviu nada disso devido ao barulho das máquinas. Esse Biu está ficando doido, isso é bebida demais!
Eu vou procurá-lo, Humberto. Ele vai ouvir umas verdades…
E seguimos para o Ponto de Cem Reis, pois já era hora do encontro diário com o resto do pessoal, para colher as notícias, artigos, matérias para a edição do dia do nosso O Gongo. Parados na calçada da Farmácia Regis, ponto combinado com a turma, eis que surge Biu com cara de poucos amigos:
- Acabo de ir lá naquele jornalzinho de merda mas só encontrei o safado do Humberto Melo, que não teve coragem de sair para apanhar! Mas só podia ser coisa dele o que vocês publicaram…
- Um momento Severino, um momento! Primeiro você chamando jornalzinho de merda não está atingindo Humberto, porque ele nem pertence ao corpo de redatores. Se estava lá foi mera coincidência. Segundo, você está atingindo pessoas que você nem conhece, que são donas do jornal, como, por exemplo, Elpídio que está aqui ao meu lado. Terceiro, explique o que está acontecendo, o que foi que lhe deixou dessa forma. Sentenciou Arlindo, encarando Biu, enquanto eu permanecia ao lado, calado e com medo. Então, já mais calmo, o nosso agressor tenta explicar a sua atitude:
- Aquele pensamento, aquele negócio do balaio de brotos, aquilo foi sacanagem… - É, eu li quando já estava publicado, não podia fazer mais nada… Também não achei que fosse causar tanto descontentamento da sua parte.. Mas certamente não foi Humberto o responsável. A notinha chegou na redação e na pressa de fechar a edição, alguém jogou no meio das outras. Mas eu lhe garanto um retratamento ainda na edição de hoje!
E lá se foi Severino mais ou menos satisfeito enquanto Arlindo aguardava alguns segundos para desatar numa risada! Ele havia sido o autor do tal pensamento! Ainda rindo da situação, voltamos ao jornal para concluí-lo e foi lá que ele escreveu e saiu publicada a seguinte jóia de pedido de desculpas:
Nota da Redação - O Jornal O Gongo, tendo publicado na sua edição de ontem o pensamento “mais vale uma velha do que um balaio de brotos” atribuído ao nosso futuro jurista Severino Alves de Andrade, conhecido como Biu Bate-Bate, vem de público pedir desculpas ao atingido pelo tal pensamento de que “mais vale uma velha do que um balaio de brotos”, afirmando que nós não achamos que “mais vale uma velha do que um balaio de brotos” pois, mesmo que comungássemos com esse pensamento de que “mais vale uma velha do que um balaio de brotos”, jamais iríamos fazer a afirmação de que “mais vale uma velha do que um balaio de brotos” e atribuí-la a uma pessoa que não acha que “mais vale uma velha do que um balaio de brotos”. Assim, mais uma vez pedimos desculpas ao nosso amigo Biu Bate-Bate, garantindo-lhe que ele nunca mais será atingido por pensamentos iguais a esse de que “mais vale uma velha do que um balaio de brotos”.
Dia seguinte, mesma calçada, mesmo Ponto de Cem Reis, mesmas pessoas. Surge Biu com um semblante enigmático. Arlindo não lhe deu oportunidade de falar primeiro:
- Leu a nota? Pedi desculpas umas três vezes, para deixar bem claro que não estávamos de acordo com aquele negócio. Gostou? Pela sua reação agora, já sei que gostou! Mas não precisa agradecer nada! Fizemos a nossa obrigação! Torpedeado por tantas perguntas e afirmações, Biu ficou meio confuso mas ainda fez uma pequena reclamação:
- Eu achei meio repetitiva, meio insistente naquela frase. Não será que foi pior a emenda do que soneto? Tenho a impressão de que a nota só fez piorar a situação! E enigmaticamente retirou-se.
Os Horrores do Mundo
Clemente Rosas
Em matéria publicada no Jornal do Commercio, em 10.07.2006, Augusto Boal, o teatrólogo mundialmente conhecido, afirma: “Existe uma boa quantidade de textos teatrais que são feitos para anestesiar os espectadores, que são criados para que eles não tenham opinião.Todo cidadão, todo artista, tem obrigação de fazer um mundo melhor do que esse, porque esse mundo está horrível. Quem não se posiciona politicamente está ficando ao lado dessa situação”.
Tais palavras soam como música e trazem alento a um coração cansado de acompanhar o rumo que vem seguindo, nos últimos tempos, as manifestações artísticas no Brasil. Tomo como objeto de comentário o caso específico das obras de ficção, nas modalidades da novela televisiva – esse folhetim moderno – e do romance.
Acabamos de assistir ao desfecho de uma dessas novelas que, contrariando o seu título, e por critérios éticos, mereceria o rótulo de hedionda. E não me refiro, absolutamente, aos “happy-ends” concebidos para duas duplas de homossexuais – masculina e feminina: devemos respeitar os direitos das minorias, e enquanto a ciência especula sobre as causas desse comportamento atípico de machos e fêmeas da espécie humana, há que tê-lo apenas como questão de escolha individual. Nada a ver com a moral social, única referência do autor deste artigo, que se declara, desde logo, não-religioso e avesso a preconceitos.
Desejo chamar a atenção para outros aspectos do folhetim, que nos brinda com a vitória final da mais perfeita das vilãs jamais imaginadas: aquela que abandona a filha, monta um plano diabólico para destruir a neta, tenta arruinar um antigo amante, rouba o parceiro da amiga, trucida, impiedosamente, os cúmplices. Uma personagem, aliás, de maldade completa, absoluta, incompatível com os marcos da realidade. Pois bem. A essa criatura teratológica está reservado um destino de conto de fadas: fuga tranqüila da polícia e exílio dourado em Paris, nos braços de um gigolô com idade de ser seu neto.
E já que falamos em gigolô, isso nos conduz ao segundo aspecto a ressaltar: a apologia da prostituição masculina. Atente-se: não se trata apenas de esforço de compreensão, tolerância ou leniência com o “amor pago a varejo”. Trata-se de exaltação, louvação, legitimação. Senão como entender a simpatia emprestada ao jovem rufião, a sua descontraída opção pela velhota que lhe oferece mais, abandonando a “coroa”, e o prêmio de consolação arranjado para esta, na pessoa de um novo garoto mercenário? E, neste caso, o novelista fez questão de ser explícito: o pagamento, pela matrona saciada, é feito em dinheiro vivo, na própria cama, ainda na lassidão feliz do pós-coito.
Se alguém argumentar que a atitude de vender o próprio corpo, fora de um contexto de miséria, não deve ser motivo de censura, e que devemos ensinar aos nossos filhos que o crime compensa, darei por encerrada a discussão. Não sendo assim, como espero, cumpro o dever de fazer-me voz dos perplexos e dos indignados.
Mas tal espécie de “indiferença moral” não se manifesta apenas no folhetim eletrônico, esse campeão da cultura de massas. É encontrável também na ficção mais seletiva dos romances. Dou como exemplo três livros de autores nordestinos: “As Dunas Vermelhas”, do potiguar Nei Leandro de Castro, “Concerto para Paixão e Desatino” e “Quando Alegre Partiste”, do paraibano Moacir Japiassu. Ambos os autores de excelente nível, mestres da sua linguagem, navegando bem nas águas do “romance histórico”: compondo a trama ficcional nos claros de um passado efetivo e fazendo conviver personagens verdadeiros com imaginários. Um gênero em moda, de muito apelo para a leitura.
O que constatei, no entanto? Embora situados em épocas de grande efervescência político-social, em que não faltaram exemplos de altruísmo, coragem e desprendimento – a revolução de 1930, a insurreição de 1935 e o movimento militar de 1964 – seus personagens são modelos de vícios: covardes, interesseiros, rapaces. Realismo? Nem tanto, penso com meu obstinado otimismo. Não somos assim tão torpes. Claro que não esperava encontrar apenas “heróis positivos”, mas também “heróis problemáticos” (categorias lukacsianas). Só que, na configuração destes últimos, que refletem, em suas debilidades, as contradições, as injustiças e os condicionamentos da sociedade, é preciso sentir a postura crítica do narrador. E, sem deslustre para os meus comentados, não percebi isso no que li.
Vejamos o caso dos bem sucedidos romances de Moacir Japiassu, meu brilhante conterrâneo. No primeiro deles, acima citado, que se passa na Paraíba da Aliança Liberal, o personagem mais simpático, um jovem filho de padre, dono de um assovio melodioso, com que acompanhava as missas do seu “padrinho”, faz sucesso como interrogador implacável de “perrepistas” presos, usando métodos nada convencionais. Depois, prático-farmacêutico, não vacila em envenenar um usineiro, por interesses materiais, a pretexto de medicá-lo. No segundo livro, ambientado no Rio da “Revolução Redentora”, um esquerdista vende a irmã menor de idade a um coronel do Exército, para escapar da cadeia, e, com o suicídio inesperado da garota, consola-se com um posto diplomático no Exterior, mantendo-se como auxiliar e cúmplice do algoz. Outro, caminhoneiro, ao dar fuga a um jornalista perseguido, para livrar-se de um incômodo “carona” direitista mata-o a cacetadas, e no afã de certificar-se da perfeição do “serviço”, enfia-lhe uma chave de fenda no ouvido.
Entendam-me bem: não se trata de negar ou esconder a crueldade e a vileza, que são parte da condição humana. O que me choca é abordá-las com neutralidade, com distanciamento, como se a maldade fosse algo a ser aceito conformadamente, e contra o qual não valesse a pena lutar.
Volto a Augusto Boal, para prestar-lhe homenagem, glosando a sua declaração com o registro de que o posicionamento político, por ele exigido para os intelectuais, implica também um compromisso ético. Ao lidar com esse conflito imemorável da natureza humana, a literatura de ficção pode espelhar vitórias episódicas do Mal, comuns e até freqüentes em nosso dia-a-dia. Mas nunca aceitá-las como inelutáveis, ou perder a perspectiva da vitória final do Bem, ainda que no plano da escatologia. Pois só assim a nossa vida “vale a pena e a dor de ser vivida”.
Clemente Rosas é consultor de empresas
N.R. Mais um amigo vem nos honrar com a sua presença.
Só Pode Ser Inveja...
Carlos Mello
Chamo essa minha amiga de Maga Patalógika porque ela percebe coisas que ninguém vê. Vou muito no que ela diz. Uma noite, no meio de um papo, olhou pra mim bem séria:
- O problema é que você provoca muita inveja.
- Eu?! É boa! De quê?
- Não sei. Mas provoca.
- Mas por quê?
- Sei lá, você é inteligente, fala bem.
- Grande coisa!
Voltei pra casa embrulhado naquela idéia. A noite estava fria, coisa tão rara no forno dessa cidade – o ônibus quase vazio, enrodilhei-me num banco. Tomara que ninguém venha sentar aqui, que não tenha nenhum assalto. Preciso pensar com calma nesse negócio de inveja. Poxa, mas inveja de mim?
Em casa, botei depressa o pijama, deitei, cobri-me, dobrei os joelhos agarrado ao travesseiro. Meu Deus! Então tem gente querendo ver minha caveira? Mas por quê? Que mal eu fiz, que mal posso fazer a quem quer que seja? Na minha cidade, quando a gente queria esculachar alguém, dizia: “É feio, pobre e mora longe”. E sempre outro acrescentava rindo: “E dança mal”. Puxa, eu correspondo a essa descrição, com a agravante de acrescentar “e é velho”. Como é que ainda consigo provocar inveja em alguém?
De manhã, olhei minha cara no espelho, os móveis a minha volta, as paredes descascadas do conjugado, a toalha de banho dependurada na cadeira. Me lembrei da estória que o profeta Natã contou ao rei Davi, antes de espinafrá-lo pela pisada na bola : “Havia dois homens numa cidade, um muito rico, outro muito pobre, que só tinha uma ovelha. O rico, para recepcionar um amigo, tomou a única ovelha do pobre e a preparou para o visitante.” Eu me sinto como esse pobrezinho, minha única e magra ovelha é essa coisa vaga e genérica: “ser inteligente e falar bem”. É isso que provoca inveja? Esses miseráveis querem me tomar até essa magra cordeirinha?
Preciso falar com a Maga! Devo doravante ficar calado, ou só falar sandices, como todo mundo? Para que não me invejem, não fiquem me secando? A Maga deve ter a solução pra isso.
É claro que o telefone está mudo. Bom, a porcaria do orelhão foi depredado de novo! Os idiotas, quebram o que pode ser útil a eles mesmos. Se ainda tivesse meu celular… Nunca vou esquecer o mulato com a arma apontada, os olhos injetados, eu sozinho no ônibus. A cobradora disse que não viu nada. Claro! Há um acordo de cavalheiros, você não me denuncia, eu não te assalto. Quantas vezes refiz essa cena, sempre com um desfecho diferente. O cara ia descendo, eu tinha uma arma escondida, mirava bem o cóccix, ele ficava paraplégico pro resto da vida. Ou então, eu vinha no ônibus, subia o mesmo cara de novo, não me reconhecia. Eu fingia uma pressa, descia, lá vinha um carro da polícia.
- Que foi que houve, Professor?
Era o Fofão, meu ex-aluno, lembrou logo de mim.
- Um cara me assaltou naquele ônibus.
- Agora?
- Não, faz tempo. Mas é ele, vai assaltar de novo. É um mulato, de bigode, com uma capanga jeans na cintura.
- Entra aqui, Mestre.
Era ele mesmo, jogaram o cara no camburão. O outro PM achou logo o três-oitão na capanga, junto com documentos e dinheiro.
- Que é que a gente faz agora, Mestre?
- Eu, por mim, esse cara não tinha mais licença de respirar.
- Deixa com a gente. Tem algum aí, pro colega?
Dei com gosto os 200 reais que tinha tirado pra comprar um sapato.
Faz tempo isso, foi no ano passado.
Diabos, preciso falar com a Maga. Esse negócio de inveja… Finalmente o telefone deu linha.
- Maga, sou eu. Posso ir até aí?
- Já te disse que pode vir a qualquer hora.
- E se você estiver com alguém?
- A gente faz a festa juntos.
Era assim minha doce amiga adivinhona. Cheguei, ela estava enrolada na toalha. Ia tomar banho. Fiquei olhando uma caixa de fotos que estava em cima da mesa.
Fotos dela, do tempo da faculdade, década de 70. Que gatinha linda, riponga, com aquelas roupas aciganadas, cabelão. Ou de biquíni, fazendo camping. Ou topless, deve ser na ilha do Mel. Ela acampava lá. E esse cara com ela, bonitão, forte, cabelo cacheado? Esse sim, é que devia provocar inveja, não eu!
Lá vem a Maga, molhada, enrolada na mesma toalha. Agora tem uma certa barriguinha, um pouco de celulite no bumbum, peitinhos meio caídos, cabelos grisalhos. Tempus fugit, nec revertitur. Mas ainda é bem gostosa a minha Maga!
Por que não caso com ela? Sei lá, não dá certo. Ela mora bem, pelo menos bem melhor que eu, apê próprio, dois quartos, linda vista, boa clientela, prestígio no mundo psi.
Abraçou-me pela cintura, me deu uma força:
- Não é possível que um cara inteligente como você…
Esse comentário sempre me provoca uma esperança, mas daquela que já vem cansada. O que é que “um cara inteligente como eu” pode fazer? Eu não sei ganhar dinheiro, não tenho saco nem talento pra isso. “Quem nasceu pra dez réis, não chega a vintém…”, dizia minha mãe dos fracassados que não eram da família. Premonição, falava de mim, e eu não sabia.
Mas a Maga não acredita nessa profecia, acha que é auto-sabotagem.
- Por que você não encara um divã?
- Acredito lá em psicanálise! Tantos anos de tratamento, para ficar ainda mais desanimado e confuso. Só se eu for num terreiro…
- Pois vá! Qualquer coisa pra quebrar esse videoteipe que você passa sem parar na sua cabeça.
- Grande Maga! Você é que é minha analista.
E fomos pra cama. Dessa vez não foi como das outras, em que a gente transava de porre. Olhei bem pra cara dela, seus olhinhos de cobra, seu sorriso. Achei uma gracinha suas rugas, sua flacidez. Acho que ficamos mais de uma hora só nas chamadas carícias mútuas. Saí de lá tarde da noite, ela ficou dormindo quietinha. Mal cheguei em casa, tocou o telefone, era ela.
- Pô, cara, por que você foi embora? Tava tão bom! Foi maravilhoso, você me liga demais, parece que adivinha meus pensamentos!
- Que bom que você gostou.
- Muito. Não quer vir dormir aqui?
- Não, já é tarde, estou caindo de sono. Sábado à noite passo aí.
- Tchau, bejinho.
No sábado à noite, a coisa mudou. Pra começar, tinha um cara com ela, acho que um antigo namorado, iam jantar na Barra. Nada de festa junta, nem perguntaram, se eu queria ir. E já saíram de mãos dadas.
Caramba, que sábado! Para onde vou, a essa hora? Sem carro, com pouca grana. É por isso que muito nego pira, vai ser frade, monge. Esse mundo é um vale de lágrimas. Já sei, vou pra casa, tomo logo uns dois ou três comprimidos e durmo. Dito e feito. Acordei no dia seguinte às 11 horas da manhã, com o telefone. Era ela.
- Ôi, gatão, e aí? Que fez ontem à noite?
- Eu? Nada.
- Por que não quis ir com a gente?
Era de abilolar! Como, se nem me chamaram? Que cara de pau! Mas pelo menos isso aprendi com ela: o bom cabrito não berra.
- Eu já tinha compromisso, passei só pra te ver. E vocês, divertiram-se muito?
- Fomos dançar, tomamos um monte de chope. Acabei nem jantando. Tô até com um pouco de dor de cabeça.
- Que pena!
- Pena? Por quê?
- Porque eu ia te propor a gente sair, ir a um cinema.
- Não, cara, não tô a fim. Vem pra cá. A gente prepara um rango, descansa, à noite pode-se jogar um buraquinho, tomar uma cerva. Quer?
- Tá legal, chego já aí.
Tomei banho às pressas me arrumei o melhor que pude e saí ventando. Agora, caiu a ficha! Essa é a minha Maga, gostosa, cheirosa, linda e que me quer bem. Vai ver que o tal ex-namorado bateu fofo. E aqui vai o “presta-pra-nada”, o “pobre-feio-e-mora longe”. Nem Napoleão Bonaparte, nos seus melhores dias, ia mais ovante do que eu.
No prédio dela tinha uns moradores conversando com o porteiro. Não responderam ao meu boa-noite e ainda me olharam feio. Pensei com os botões do meu casaco:
- Só pode ser inveja…
Respeitosa Consideração
Luiz Gonzaga Lopes
Hoje, Cabeleira fecha os olhos para reavivar o passado, cruza os dedos e jura que a estória é verdadeira:
- Eu conheci os dois muito bem - diz ele. Tanto o Juiz quanto Seu Gerôncio, o motorista do misto.
O Dr. Veiga era um cinqüentão solteiro, muito ponderado e cioso de sua condição de magistrado. Culto, poliglota (falava latim e alemão), apreciava as artes em todas as manifestações, tinha como passatempo dedilhar um cravo adquirido na Itália.
Já Seu Gerôncio se distinguia pela grandeza de coração e pela sinceridade do falar, o vozeirão sempre nas alturas. Embora fosse grosso em seus modos, todo mundo o estimava. Das coisas que ele gostava, uma era carregar gente importante da boléia de seu veículo. Já tivera muitos passageiros ilustres: o Vigário de São José da Lagoa Tapada, o Delegado de Princesa, O Médico de Arvoredo, o Farmacêutico de Queimada, o Bispo de Missões, o Prefeito de Cabaceira.
Agora, estava outra vez de grande: ao lado dele, ombro a ombro, viajava, compenetrado, o Juiz de Direito de Jaçanã, Doutor Solidônio de Assunção e Veiga. No banco de trás, a testemunha ocular desta estória, Cabeleira (na época com seis anos de idade), que nada deixava escapar, dentro ou fora do misto.
Finda a viagem, Seu Gerôncio desmanchou-se em atenções para com o magistrado. Subiu ao mais alto da carga, arriou os pertences do meritíssimo:
- Taqui, seu Juiz, seus teréns. Tá tudo dentro da mala.
- Obrigado, Seu Gerôncio. Agora desejo pagar a passagem. Quanto devo?
- Deve nada não, Doutor. Eu que agradeço pelo senhor ter viajado comigo.
- Absolutamente, Seu Gerôncio. Sei que o senhor vive desse caminhão, portanto, faço questão de pagar. Para pôr fim à insistência do magistrado, Seu Gerôncio, tentando ser agradável, encerrou o assunto:
- Ta conversando merda, Doutor. Vou lá cobrar dum homem como o senhor!
Crônica - O ESQUECIMENTO DO MINISTRO
Riobaldo Tatarana
Nomeado ministro da Cultura, no governo João Figueiredo, Eduardo Portela iniciou sua primeira coletiva com essa boutade: “Eu não sou ministro; eu estou ministro”. Todo mundo gabou muito a frase de Sua Excelência, que assim expressava, de modo sucinto e elegante, quão efêmeras são as glórias humanas, e quanta distância há entre a permanência de ser e a impermanência de estar. Mais ainda, aludia de modo indireto à inexorável força dessa mão de bronze que, do nosso âmago, muitas vezes nos coloca em posições que não correspondem àquelas que apeteceriam ao lado, digamos, mais epidérmico de nós mesmos. Guimarães Rosa tem essa reflexão: “O mais-fundo de mim mesmo não tem pena de mim; e o mais fundo de meus pensamentos nem entende as minhas palavras”. Antes dele, já Fernando Pessoa queixava-se: “Há entre quem sou e estou/ Uma diferença de verbo/ Que corresponde à realidade.”
A frase brilhou como uma pequena jóia da inteligência ministerial e ficou para sempre na mente dos políticos, que não dispondo da facúndia portelense, toda hora recorrem à mesma tirada espirituosa, fazendo-a anteceder do nome do autor. Nosso vice-presidente, quando foi nomeado ministro da Defesa, saiu-se com essa: “Como disse o Professor, eu não sou ministro, eu estou ministro”. E a mídia repete a frase, faz ecoar por todos os cantos do país o dito sutil, reavivando assim na memória do povo a destreza verbal do mestre, que além de tudo goza da imortalidade conferida pela ABL. Tudo muito bem. O problema é que o então recente ministro, talvez pela emoção da posse, esqueceu-se de lembrar que a frase não é sua, mas de Machado de Assis, que a formula em mais de uma passagem. Fiquemos apenas com essa, que inicia o capítulo CLXXIII do romance Quincas Borba:
- Com que, o Teófilo está ministro! Exclamou Carlos Maria.
E, depois de um instante:
- Creio que dará um bom ministro. Você queria ver-me também ministro?
Esquecer de citar o autor é fato corriqueiro em nosso país, e creio que em nosso mundo. Só que o ministro, ao aproveitar-se da pouca leitura dos seus entrevistadores e dos seus pares, embolsou espertalhonamente a glória do outro, e até hoje dorme placidamente sobre os louros machadianos. Deixá-lo dormir. Não faz mal a ninguém e deixa feliz nosso tão querido imortal. Somente, a bem da verdade, intrometi-me a fazer essa pequena correção. Já outras vezes tentara, através dos jornais cariocas. Mas, talvez por receio de magoar o professor, todos recusaram esse esclarecimento, que aí vai, no meio de tanta coisa mais interessante para ler.
Poeta no Blog:
Poeta no Blog:
Trata-se de Luis Gonzaga Lopes, escritor de grande talento, poeta inspiradíssimo, Campinense de boa cepa. Seja bem vindo meu caro Lula, conterrâneo velho de guerra.
Recepção
A porta abriu-se
Sorrindo,
ela disse:
Entra.
O vento antecipou-se,
E a cortina balançou
Em ritmo de festa