terça-feira, agosto 05, 2008

A meia lua no céu...


Cláudio Mattos


A meia lua no céu, bem no meio do céu, chega toda fogosa querendo chamar a atenção. A noite passa calma e silenciosa, não há pássaros cantando, nem corujas piando. As cigarras parecem ter tirado férias, deixando a noite sem seu sabor real.

Onde Deus, onde estão as vidas ? As vidas, as vozes, o choro? Onde andam as pessoas, cadê seus abraços, seus beijos, seus olhares profundos, puros, singelos, seus olhares tão doces...

Deus, as pessoas agora se escondem umas das outras. Se protegem em suas fortalezas, mal dão "bom dia" quando saem para comprar o pão nosso de cada dia. É difícil entender esse isolamento.

Alguém por favor pode me explicar porque até hoje eu não consegui entender? Por que economizamos gestos nós, humanos, precisamos uns dos outros?

Como se não bastasse, irritado com o mundo, o homem destrói a natureza e contamina os animais com sua frieza, deixando-os cada vez mais silenciosos. Mais sem vida, sem reação.


cacaldas2005@gmail.com

quinta-feira, julho 31, 2008

Algemas em cena!



Germano Romero

Diariamente vêem-se cenas deploráveis nos programas policialescos com que as emissoras de TV local decidem nos brindar em plena hora do almoço. Além do impacto visual das imagens em si, o foco se dirige às mais dolorosas entranhas do ser humano. São dramas associados a crimes que envolvem pessoas de qualquer idade, inclusive adolescentes e crianças, invariavelmente de classes sociais marginalizadas e desprotegidas

Ouvindo e lendo recentemente nos jornais, com muita freqüência, o termo "espetacularização", lembrei-me desses casos de polícia televisivos. Curiosamente não é a esses programas sangrentos que o emergente termo vem se aplicando, e sim às prisões de ricos e famosos, coisas nunca dantes vistas por esse imenso Brasil. Aliás, no governo Lula há a impressão de que existe mais corrupção justamente porque "espetacularizaram-na", tirando muita sujeira debaixo do tapete palaciano. E o "start" dessas "espetacularizações" foi dado no governo Collor, não obstante logo caírem novamente em desuso.

Convenhamos que há certa dose de prazer ao ver-se a bendita Polícia Federal agir sem discriminação no pleno exercício de suas investigações, em busca da justiça. Acrescente-se uma pitada de sadismo quando o alvo das diligências são poderosos empresários e inescrupulosos políticos que não têm a menor necessidade de roubar dinheiro público. Fazem por cafajestice, ambição desenfreada e mau caráter, ignorando todos os preceitos e princípios que se presumem aprendidos, ou ao menos escutados nas escolas, faculdades e no abastado convívio doméstico a que tiveram direito. Aí é que aumenta o sabor da "espetacularização".

Mas, tudo ocorre bem diferente dos espetáculos exibidos na TV local, em que humildes delinqüentes, cuspidos da sociedade por injustiça, são algemados e humilhados sem piedade. E com que grosseria os jogam contra a parede, seminus e sem o menor direito à privacidade... Além de expor escancaradamente as suas fisionomias, sem pedir licença ou lhes dar direito ao silêncio, enfiam microfones nas suas caras e os obrigam a confessar crimes que às vezes nem cometeram... Isso, sim, é que é "espetacularização"!

Todavia, jamais se viu um membro de instituição ligada à justiça se arvorar em defesa dessas vítimas diárias das algemas e da "espetacularização". Só porque não usam colarinhos, muito menos brancos. O que já era de se esperar num país em que há crimes "afiançáveis", celas especiais para criminosos doutores, foros privilegiados para quem desvia o dinheiro do povo, etc. E dentre tantos privilégios, como poderia se aceitar que se algemem os poderosos, sobretudo quando se desconfia que está por vir ainda mais sujeira? Mas, cá pra nós, bem que a fama e a riqueza valorizam essas cenas, hein?

terça-feira, julho 29, 2008

Aos meus filhos e amigos


Anco Márcio de Miranda Tavares

Quando eu morrer, não desesperem. Me procurem na chuva. Eu serei o pingo que molha e refresca seus rostos. Quando eu me for, não fiquem tristes. Me procurem na tempestade. Eu serei aquela brisa leve que apenas despenteia seus cabelos. Quando eu já for só lembrança, me procurem na terra. Eu serei aquele grão de areia que junto com mihares, forma a praia.

Quando eu estiver bem longe, mas longe de nunca mais voltar, me procurem na alegria. Eu serei o riso que brota de cada boca, a gargalhada que estala de cada garganta. Quando eu estiver fora, mas fora de uma vez por todas, me procurem numa rosa. Eu serei o perfume que ela exala..

Quado eu desaparecer, não fiquem tristes, nem chorem. Me procurem na noite. Eu serei a alegria que brota do coração de cada bêbado.

Quando eu me apagar para sempre, me procurem no firmamento. Eu serei aquela estrela de luz bem forte, que lhes orientará os passos. Quando eu for apenas lembrança, me procurem na floresta. Eu serei aquela pássaro cantador que acorda primeiro.

Quando eu for apenas um retrato na parede, me busquem no vento. Eu serei aquele brando, de leste, que apenas enxuga o suor dos cansados. Quando eu me for de verdade, não desesperem nem pensem que tudo está perdido.Vocês me acharão nas árvores. Eu serei aquela folha que cai, rodopiando até o chão...

Quando estiverem quase esquecendo de mim, me procurem no trovão. Eu serei o relâmpago que ilumina as trevas. Quando eu for apenas uma doce saudade, me procurem nos cemitérios. Eu serei a doce flor que ornamenta a morte. Quando eu não mais estiver nessa mundo, me busquem no transito. Eu serei o sinal que abre todas as passagens.

Quando eu virar passado, não se descabelem nem chorem. Me busquem nas Maternidades. Eu serei aquele choro inocente de cada bebê que nasce. Quando eu não mais for vivo, me busquem no meu quarto. Eu serei uma lembrança muito viva, sentada ao computador, escrevendo essas bobagens.

Me busquem nas almas das prostitutas, dos drogados, dos bêbedos que todos eles têm em si, um pouco de Deus, me procurem nos prostíbulos que lá estarei no rosto triste de cada um. Me busquem no firmamento. Alguma nuvem, em seu formato, há de lembrar o meu corpo quando vivo.

Eu não queria morrer, nem é tanto por mim, mas pra não causar-lhes dor alguma, tristeza nenhuma, nenhuma busca inútil pelos quatro cantos vazios da vazia casa. Quando eu me for, não desesperem. Eu estarei sempre perto de Deus, e pessoalmente pedirei por vocês.

www.ancomarcio.com

segunda-feira, julho 28, 2008

UM PROFESSOR E O NORDESTE


Clemente Rosas

O Professor Malaquias Batista Filho aposentou-se pela compulsória, mas continuou ajudando os seus alunos. E recebeu, este ano, o título de Professor Emérito da Universidade Federal de Pernambuco. Convidado para a cerimônia, não pude comparecer, por motivo de viagem de trabalho. Presto-lhe agora a minha homenagem, por uma vida de dupla dedicação: à pesquisa científica e às questões sociais, nele saudavelmente harmonizadas.

Quis o acaso que, após ler três livros editados pelo IMIP que meu amigo Malaquias escreveu, co-escreveu ou organizou, me caíssem às mãos as memórias de Assis Lemos, o ex-deputado paraibano líder das Ligas Camponesas no nosso Estado. E nelas aparece a figura destemida do então estudante de medicina, à frente de concentrações e atos públicos, denunciando os latifundiários mandantes de crimes contra os camponeses. Malaquias, já naquela época, conciliava atribuições discrepantes: médico em formação, escritor (editorialista do jornal paraibano “A União”) e militante político, movido a puro idealismo. Hoje, ocupando o espaço pioneiro de Josué de Castro e Nelson Chaves, mantém a mesma polivalência, pois que a nutrição é o campo da medicina onde a dimensão política se apresenta com maior intensidade.

Pena que sua extrema discrição tenha impedido, até agora, o reconhecimento social que o seu trabalho merece. É possível mesmo que ele seja mais conhecido no resto do país, ou no exterior, onde participa de conferências científicas, do que no Estado que escolheu para viver, ou na sua terra natal. Aliás, das quatro figuras ilustres que a cidade de Taperoá e a Paraíba deram ao Nordeste, apenas uma conquistou notoriedade: Ariano Suassuna. Ainda restam Manoelito Dantas, engenheiro, pecuarista e teórico dos problemas do Semi-Árido, e Sebastião Simões Filho, químico, pioneiro da COPERBO, companheiro de Rômulo Almeida na montagem do Pólo de Camaçari, e pensador das grandes causas da humanidade. É o registro que me cumpre fazer, neste momento.

Os livros de que falei, publicados pelo Instituto Materno- Infantil Prof. Fernando Figueira – IMIP – “Viabilização do Semi-Árido Nordestino” (Malaquias “et aliis”), “Alimentação e Nutrição no Nordeste do Brasil” (Malaquias e Teresa Cristina Miglioli) e “Sustentabilidade Alimentar do Semi-Árido Brasileiro” (Malaquias sozinho) – estão a merecer comentários. Mas temas tratados com profundidade, mesmo quando polêmicos, nem sempre repercutem entre nós, enquanto afirmações levianas são facilmente endossadas, glosadas ou refutadas – com a mesma superficialidade. Há que esperar por quem se disponha a mergulhar fundo nos textos, e oferecer alguma contribuição séria ao desejável debate de idéias.

Não tenho aqui espaço para tal empreitada, além do que me alinho plenamente com as teses e propostas das obras referidas. Ressalto apenas algumas revelações – verdades antigas ou recentes, mal assimiladas pelas nossas lideranças – que merecem ser incluídas na pauta de discussões sobre o futuro da nossa região.

Para começar com uma novidade, até certo ponto alvissareira, no campo da nutrição “stricto sensu”, consideremos que a desnutrição infantil reduziu-se expressivamente no Nordeste (70%), enquanto a obesidade de adultos, seguindo tendência mundial, marcha para a epidemia (300%). Temos assim um novo problema a enfrentar, confortados com a confirmação de que o desafio da fome deixou de ser matéria de conhecimento científico ou de recursos naturais, e passa a exibir, claramente, a sua feição político-social.

Por outro lado, reconheçamos que a velha lição, vinda de Guimarães Duque, de que não adianta lutar contra a seca (como não se luta contra a neve, nos países frios) e sim conviver com ela, embora não contestada, não se tem traduzido em decisões das nossas autoridades. Talvez porque a receita – abandono da agricultura de subsistência, cultivo de plantas xerófilas, pecuária de pequeno porte – contrarie velhas práticas e ponha em questão obras ambiciosas como a tão falada transposição das águas do São Francisco. Nunca será demais, portanto, revisitá-la, reapresentá-la, proclamá-la, até que entre na cabeça dos nossos tomadores de decisão. Inclusive porque as terras irrigáveis, onde se pode fazer uma agricultura de alta produtividade, não representam mais que 5% do Semi-Árido.

Finalmente, mais uma questão melindrosa, de que se evita até falar, é posta às claras: a “pressão antrópica” sobre as terras secas, e a necessidade de reordenação demográfica, como forma de proporcionar melhores condições de vida aos sertanejos. O Semi-Árido nordestino é o mais populoso do mundo, e continuará pobre, enquanto o for.

Aí estão, portanto, três temas candentes, entre vários cientificamente tratados por Malaquias e seus companheiros, nas edições do IMIP. Minhas reverências a todos. E que sejam lidos e entendidos, como merecem.

quinta-feira, julho 24, 2008

"Muito Prazer, Bananeiras! Sou o Fotógrafo Guy Joseph".


Queridos amigos: antecipadamente agradeço a atenção e, se possível, a divulgação da minha exposição fotográfica, "Muito Prazer, Bananeiras! Sou o Fotógrafo Guy Joseph". A expo será inaugurada no dia 30 de julho, às 17 horas, na agência do Banco do Brasil da cidade de Bananeiras. Você é meu convidado. Abraços. Guy Joseph


Fotógrafo, designer-gráfico e artista plástico, depois de passar dois anos e meio viajando por todo o Estado da Paraíba, Guy Joseph resolveu se mudar para a cidade de Bananeiras. Muitos fatores contribuíram para essa escolha: sossego, maior contato com a natureza, clima agradável, segurança, tudo isso, em uma cidade bonita, limpa e hospitaleira. E, com distâncias parecidas, entre Bananeiras e a Capital, Recife, Natal e Campina Grande.

Há um ano, residindo em Bananeiras, Guy Joseph desenvolve novos projetos e faz da Internet a sua ferramenta de trabalho. Atualmente, fornece fotos sobre a Paraíba, para seremm publicados em livros didáticos da Editora Scipionne, ligada ao Grupo Abril-SP.

Para ser apresentado à cidade de Bananeiras, Guy Joseph foi buscar uma forma inusitada de se apresentar e resolveu montar uma exposição fotográfica, cujo título, é: “Muito Prazer, Bananeiras! Sou o Fotógrafo Guy Joseph”. A expo é composta por vinte fotografias, em cor, focalizando o cotidiano das ruas, a gente e as paisagens de Bananeiras. As fotos, foram ampliadas (25cmX38cm), e montadas em placas de foam-board e estarão expostas no hall de entrada da agência do Banco do Brasil de Bananeiras.

A abertura da exposição, “Muito Prazer Bananeiras! Sou o Fotógrafo Guy Joseph” deverá acontecer às 17 horas, do dia 30 de julho, quando será servido um coquetel, aos convidados.

A exposição de Guy Joseph faz parte da programação paralela do projeto, “Caminhos do Frio”.

UM SONHO AMEAÇADO


Djanira Silva

Nunca hoje a saudade. Ontem. À noite. No silêncio. Nunca hoje a tristeza, ontem ao entardecer. Sempre hoje a procura, o desespero, a vontade de ver de novo.
Nos sons, os pensamentos dispersos, emaranhados nos sinais luminosos de outros mundos. Como encontrar o som de que preciso? Em qual deles reconhecerei tua voz?

Hoje, encontrei um caminho aberto e me perdi das minhas certezas, dos meus medos da falta de coerência. Tanto tempo aqui e não pude, nunca, aprisionar teu som. O pássaro, a gente prende, o canto é livre. O grito solto na escuridão das masmorras desafia o algoz, liberta a dor, desencarcera a alma. Ganhaste o direito de viver. A liberdade te deu asas, livrou tua alma de um corpo estranho. O meu, é a minha prisão onde ainda canto sem saber por quê. A saudade me fez refém, deixou-me em teu lugar.

Aquartelada no silêncio, tento decifrar o que me diz o vento, o vento que assobia assustando as palmeiras. O que dizem as ondas sobreviventes das tempestades, o que me conta o sol, a lua. as estrelas, as noites de agosto, perdidas nas vozes de ventos magoados.
A manhã nasceu escura amortalhando um dia triste. Acabo de ressuscitar. Assim, todas as manhãs. Vou sem saber se voltarei. Perco-me por caminhos estranhos que me contam histórias loucas, histórias minhas, histórias esquecidas.

Nem sei o que fazem estas lembranças aqui. Chegam como ladrões e me assaltam, ferem-me e vão embora prometendo voltar. Ponho minha alma na horizontal para enganar o corpo. Esqueço-me de mim por algum tempo até que o juízo volte. Sinto saudade da minha loucura, do meu pensamento vagabundo sem dono e dono dos espaços, das linhas, das entrelinhas, pensamento que me engana com mentiras que me esconde as verdades e me faz pensar que sou feliz quando, durante a noite, enlouquece e vagabundeia sem controle manipulado pelos sonhos.

Cansei de esperar. O quê? Não sei. Só sei que dentro de mim existe uma sensação de espera de algo que vai chegar, de algo que vai ser revelado, de alguma coisa que me livrará das dúvidas e dos receios. É esta espera que me mantém viva, alerta.

As noites são longas? Não sei. As luzes se apagam logo cedo e quando se reacendem revelam sonhos novos. Loucos? Todos são.

Os dias estão sempre de baioneta em riste. Vá, não vá. Pare, ande. Sonhe, não, não pode sonhar. Luzes se apagam, luzes se acendem nas frestas das portas e das janelas, iluminando o perdão apagando pecados.Um passo atrás do outro. O outro, ah! O outro.

"Zé Bolinho"


Elpídio Navarro

Uma das pessoas importantes que passaram pelo Theatro Santa Roza, foi o maquinista (denominação dada aos operários do palco) Zé Bolinho. Seu nome de batismo - José Xavier da Silva - lembrava Tiradentes. Mas ele, ao contrário, não era mártir nenhum. Era uma figura que não sabia negar nada a ninguém, mas também era um tanto esperto. Das histórias de Zé Bolinho, conheci muitas e estive presente em algumas delas.

Sua fidelidade ao time do Botafogo da cidade de João Pessoa e ao bloco carnavalesco Índios Africanos, do bairro da Torre, era à toda prova. Gastava o dinheiro que pudesse com essas suas paixões.

Num das vezes que estava eu diretor do Theatro Santa Roza, chegou-me a notícias que dos nossos espanadores só restavam os cabos. A plumagem, de pavão, de todos, havia desaparecido. As fofocas atribuíam a responsabilidade ao nosso Zé, que a teria usado nas fantasias dos "caboclinhos". A acusação espalhou-se tanto que me senti na obrigação de chamá-lo para esclarecimentos. Então ele foi taxativo: "Seu Erpídio, os africanos só usam penas de galça..." Mandei providenciar a aquisição de outros espanadores.

Ele adorava época de eleição. Era quando conseguia construir uma casinha lá pros lados de Cruz das Armas, bairro onde residia. Prometia votos a vários políticos em troca de tijolos, cimento, telhas, madeiras e todo o necessário à construção de mais uma das suas fontes de renda: os aluguéis de seus casebres construídos por conta das suas promessas eleitorais. A gente nunca sabia em quem ele iria votar ou havia votado. Sempre afirmava: "o voto é secreto"!

Viajou muitas vezes com os nossos grupos de teatro, como responsável pela cenotécnica. Numa dessas viagens, sob minha direção, fomos a um festival de teatro em Ponta Grossa - Paraná. O espetáculo que levamos ("Cordel", de Orlando Senna) tinha como cenário enormes bandeirolas que deveriam descer do urdimento à cada início de cena. O palco do auditório no qual deveríamos nos apresentar tinha o teto baixo, não podendo assim esconder as tais bandeirolas. Sabedor antecipadamente do problema, o nosso cenógrafo, Breno Mattos, impedido de viajar conosco, preparou um mecanismo que prendia enrolada a bandeira, soltando-a quando fosse acionado. Mas lá, quando nos foi liberado o palco para que montássemos nosso cenário, constatamos que não estava funcionando o tal mecanismo criado por Breno. Já tarde da noite, após várias tentativas, Zé Bolinho prometeu: "pode ir dormir, seu Erpídio. Deixe comigo que eu resolvo tudo... " O espetáculo seria apresentado na manhã do dia seguinte. Ele nem chegou a dormir no hotel, o que me deixou mais apreensivo. Chegando ao teatro fui logo abordado por ele dizendo-me: "pode ficar tranqüilo, ta tudo em ordem". E estava mesmo pois a função aconteceu corretamente, na hora certa. Enquanto eu descia da cabine de controle de iluminação e tentava chegar ao palco, um tanto assediado pelas pessoas da platéia, Zé Bolinho já desmanchara tudo que ele havia feito e encaixotava nosso cenário. Perguntei por que e ele respondeu que não podia deixar os outros aprenderem o seu segredo. Posteriormente me contou: "Fiz um U!" Armou três pedaços de sarrafo formando a letra U. Prendeu a bandeirola enrolada com o tal U, como se fosse um grampo, preso a uma corda, que puxado fazia acontecer seu aparecimento. Simplesmente um U. Mas pediu segredo para o seu invento...

Mas entre outras várias histórias de Zé Bolinho a mais antiga delas, das que participei, foi logo nos meus primeiros momentos de atividade teatral.

O Teatro do Estudante da Paraíba estava encenando a peça Fim de Jornada, cujo entrecho dramático acontecia durante a primeira grande guerra mundial, tendo como personagens soldados ingleses. A direção era de Walter Oliveira e tínhamos como instrutor militar a figura simpática do General Edson Ramalho, na ocasião Comandante da Polícia Militar do Estado da Paraíba. Mas a colaboração decisiva dele não se resumiu apenas às informações de comportamentos dos militares da época, mas, também, à cessão de armas, fardas e equipamentos para compor o espetáculo. Por conta disso tudo nós fizemos uma apresentação para o pessoal da Polícia Militar, com o caráter de homenagem e agradecimento, que redundou na mais desastrada das nossas apresentações daquele espetáculo teatral.

O cenário era uma casamata, espécie de esconderijo subterrâneo camuflado no solo com pedras e arbustos, que escondiam a sua entrada e uma metralhadora antiaérea. A visão do espectador era de um cenário com dois planos: no piso do palco estava a casamata, onde acontecia a maior parte da encenação; num plano elevado, o solo do campo de batalha onde aconteciam cenas de ataques aéreos e revides pela metralhadora. O meu irmão Ednaldo Navarro interpretava uma sentinela que passava quase todo o decorrer do espetáculo no plano elevado, só descendo ao esconderijo na última cena para informar ao nosso comandante, papel desempenhado por Valdez Silva, que eu havia sido metralhado e morto num ataque de um avião alemão que continuava bombardeando lá em cima.

Ao final do espetáculo a casamata era destruída e caía o teto através de um truque feito com dobradiças que eram destravadas. Para dar a impressão de fogo, fumaça e poeira, espalhávamos em cima do teto pó de serra com talco comum, iluminação vermelha e focos amarelos intermitentes para dar uma idéia de explosões, claro que junto com os efeitos sonoros. Começamos a achar que a fumaça resultante do pó de serra com talco, que aparecia com a queda do teto da casamata, estava fraca, não convencia muito. Conversamos com José Xavier da Silva, o famoso Zé Bolinho, nosso maquinista, tentando uma solução para o problema e ele foi taxativo: “Deixe comigo que eu resolvo!”

A metralhadora estava sempre apontando para um lado, porque quando era detonada expelia as cápsulas das balas de festim para detrás do palco e, por isso, nós tínhamos muito cuidado para não mudá-la de posição.

Assim chegamos à cena final de Fim de Jornada naquele dia especial, com teatro lotado de soldados, cabos, sargentos, tenentes, capitães, só gente fardada. Eu fazia o papel de um sargento, espécie de ordenança do comandante, que recebia ordem para ir até lá em cima, no plano elevado, verificar como estava a situação e, ao chegar, era metralhado. Acontece que nesse dia uma tábua do piso do plano superior cedeu juntamente com uma das minhas pernas, que ficou presa e aparecendo na parte de baixo do cenário. Veio a rajada de balas e eu tive que cair morto fora do local marcado. Ao cair, bati na metralhadora que mudou de posição exatamente para o lado contrário. O sentinela desceu para avisar ao comandante e ao subir de volta, antes de também ser morto, passa correndo e pisa na minha mão calçando aquele famoso coturno militar. Ah, dor miserável! Foi quando aconteceu um incrível diálogo entre nós, naturalmente sem ser ouvido pelo público:

- Quando terminar o espetáculo vou lhe lascar, seu merda!

- Eu tive culpa, tive?!...

- Quero saber disso não, seu filho da puta!

- Oxente! E a minha mãe não é a mesma tua?!...

Mas a mambembada não ficou só nisso. Valdez sobe correndo e na posição em que ficara a metralhadora após o meu tropeço, puxa o gatilho. De onde eu estava podia visualizar os militares nos camarotes do Theatro Santa Roza, com as cadeiras na cabeça, para livrarem-se das cápsulas de bala que voavam para cima deles. Então veio o desastre maior: o teto da casamata arreia e provoca uma enorme nuvem de poeira para cima da platéia, que começa a tossir desenfreadamente. Zé Bolinho havia colocado uma porrada de cimento misturado com o pó de serra e o talco. Comentário de um soldado ao sair do Teatro:

- Foi a peça mais realista que eu já vi!


Elpídio Navarro é professor universitário,
dramaturgo e diretor teatral, além de editor
do www.eltheatro.com

quinta-feira, julho 17, 2008

Carnaval fora de Época

José Virgulino de Alencar


A grande pizza do caso Daniel Dantas está sendo preparada na cozinha do Palácio do Planalto, de onde partirá a operação abafa.

Daniel Dantas assusta, e muito, ilustres representantes do comando político nacional e, embora tenham tentado, não conseguiram que a apuração das tramóias de Daniel Dantas parassem num determinado ponto do passado.

E mexer no presente igualmente enlameado, claro, não interessa a quem está atolado até o pescoço no lamaçal.

Como o Brasil tem um eficiente maitre pizzaiolo comandando tudo, nada acontecerá.

É só carnaval fora de época.