sexta-feira, outubro 12, 2007

ONDE ESTÃO OS CARAS-PINTADAS?


CLEMENTE ROSAS

Há quinze anos, saudei com emoção o retorno da juventude às ruas, pela causa da moralidade na administração pública (“As Lutas Estudantis”, Jornal do Commercio, 24.09.92). Era a empolgante mobilização dos “caras-pintadas”, que culminou com o impeachment do Presidente da República. À sua frente , o jovem Lindbergh Farias, hoje Prefeito de Nova Iguaçu. E naquela ocasião evoquei os meus tempos de militância, trinta anos atrás, na União Nacional dos Estudantes, ao lado do pai dele, o médico de mesmo nome, hoje falecido.

Há três meses, a convite do Senado Federal, fui a Brasília para uma sessão solene de homenagem aos 70 anos da UNE e ao Centro Popular de Cultura, criado pela entidade na gestão de que participei: 1961-1962. Embora não tivesse grande esperança de reencontrar os intelectuais e artistas do CPC, hoje brilhantes e famosos – Arnaldo Jabor, Cacá Diegues, Cecil Thiré, Flávio Migliaccio (Vianinha, Armando Costa e Leon Hirzman já se foram) – contava rever os colegas mais próximos da diretoria: Roberto Amaral, Marco Aurélio Garcia e Aldo Arantes. Seria uma reunião de forte conteúdo emocional, pelo muito que convivemos e juntos sonhamos, nos anos ainda dourados que antecederam o desmantelo de 1964.

Somente o Aldo compareceu. Militante obstinado, político em tempo integral, apresentou-me aos seus companheiros do P C do B, entre eles o Senador Inácio Arruda, autor da proposta da homenagem, e a jovem, juveníssima Deputada Manuela d’Ávila. Conheci também o então Presidente da UNE, Gustavo Petta, e a candidata à sua sucessão, Lúcia Stumpf, hoje eleita. Conferi a presença do ex-presidente do STF, Sepúlveda Pertence, que também foi dirigente da entidade um pouco antes de nós, e abracei o Senador Cristovam Buarque, amigo que não via, em pessoa, desde muitos anos.

Não posso dizer que não houve emoção na solenidade, para mim também, apesar de tantas ausências. O Senador Pedro Simon fez um belo discurso, entre vários outros, e a reunião teve seu ponto culminante na homenagem à senhora mãe de Honestino Guimarães, único presidente da entidade a integrar a lista dos “mortos sem sepultura” dos anos de chumbo. Nas galerias, jovens estudantes entoaram slogans e trechos do hino da UNE (letra de Vinícius de Moraes, que achávamos “pouco marcial”, naqueles tempos de empolgação...). Houve emoção, sim. Mas, ao mesmo tempo, houve, de minha parte, uma constatação melancólica, agora acentuada pelos acontecimentos políticos que escandalizam o país, e me fazem voltar ao tema.

A cidadania brasileira vem sendo, dia a dia, afrontada com as graves denúncias de crimes cometidos pelos integrantes dos mais altos escalões da República, e mais ainda com a desfaçatez com que os acusados protestam inocência, contra todas as evidências, e manobram para permanecer incólumes em seus postos. O caso mais recente e mais chocante é o do Presidente do Senado, que tem contra si nada menos que quatro acusações substanciosas. A imprensa o condena, a reprovação popular se manifesta de todas as formas possíveis, mas os estudantes estão silenciosos. Por quê?

Recordo que, nos meus saudosos tempos, a política universitária era feita à margem dos partidos oficiais, que não tinham expressão em nosso meio: o PCB era clandestino, a JUC (Juventude Universitária Católica) não tinha estrutura formal e a POLOP (Política Operária) não passava de um pequeno grupo de jovens intelectuais que editavam um jornal com esse nome. Não planejávamos carreiras políticas, não tínhamos projetos pessoais e nossas ações eram motivadas apenas pelo ideal romântico de construir uma sociedade mais justa e igualitária. A diretoria da UNE congregava, de regra, várias tendências, que se harmonizavam em torno de causas comuns e abrangentes.

Hoje, porém, um único partido – o P C do B – comanda a instituição, já por dez gestões sucessivas. É natural que a instrumentalize para os seus interesses imediatos, e, como compõe a base de sustentação do Governo, não deseja desgastá-lo, nem aos outros partidos aliados. Só isso pode explicar a ausência dos estudantes em um movimento que teriam tudo para liderar, como em 1992, e com motivação até mais forte: os casos de improbidade que vêm à tona agora são ainda mais graves e mais numerosos.

Rejeito a razão mesquinha, aparentemente usada como desculpa para a omissão, de que a campanha favoreceria partidos conservadores, em oposição a um governo comandado por um homem do povo. O argumento não condiz com a independência de espírito, o altruísmo, a abnegação que sempre foram apanágio da mocidade, através dos tempos. A luta pela moralidade na administração pública é atemporal e suprapartidária. Não pode submeter-se a condicionantes.

Dirijo, portanto, meu apelo às novas lideranças estudantis, na convicção de que falo em nome de muitos que, como eu, viveram, há quarenta anos, essa inesquecível experiência. Queremos vê-los de novo nas ruas, ao lado do povo, ouvir suas canções, sentir o calor do seu entusiasmo, vibrar com as suas bandeiras e as suas cores. Vocês são a face risonha e esperançosa da sociedade. Assumam, pois, o lugar de vanguarda que sempre lhes coube, ao longo da História. Assim, trarão novo alento a corações cansados como os nossos, e fortalecerão neles a crença em um futuro mais digno para o nosso país. Caras-pintadas, onde estão vocês?

* Clemente Rosas é consultor de empresas (clementerosas@terra.com.br)

quinta-feira, outubro 11, 2007

AURORAS DA MINHA VIDA

ELPÍDIO NAVARRO

Quando jovem, a partir dos vinte anos, envolvido no crescente movimento teatral paraibano, pensando abertamente autores europeus de esquerda, como Garcia Lorca e, principalmente, Brecht, e pensando com mais cuidado numa possível revolução socialista, poesia teria de participar do processo.

Então o entusiasmo era "Dizem-me: come e bebe!/Fica feliz por teres o que tens!/Mas como é que posso comer e beber,/se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?/se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede?/Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo."

Poetas como Cassimiro de Abreu eram levados ao ridículo: fazia-se paródias engraçadas com os seus versos e até eram encenadas. Lembro da história da garotinha que teve a tarefa de decorar "Meus Oito Anos" para declamar em sala de aula e não conseguia chegar ao fim da primeira estrofe e quando se apresentou foi um desastre: "Oh! que saudades que tenho/Da aurora da minha vida,/Da minha infância querida/Que os anos não trazem mais!/Que amor, que sonhos, que flores,/ Nas sombras das fogueiras/Às tardes dos laranjais/Por cima das bananeiras." Mas o "poeta do amor e da saudade" como o denominada o Padre Rui, pároco na cidade de Areia e professor de português da Escola de Agronomia do Nordeste, teve a sua importância e a sua obra está sendo redescoberta e hoje sou capaz de reler versos como "Quando eu te vejo e me desvio cauto/Da luz de fogo que te cerca, ó bela,/ Contigo dizes, suspirando amores: "Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!" //Como te enganas! meu amor, é chama/Que se alimenta no voraz segredo,/E se te fujo é que te adoro louco... /És bela — eu moço; tens amor, eu — medo..."

Li no jornal uma crônica, "Rua Sá Andrade, o avô e o neto", do Desembargador José di Lourenzo Serpa. Imediatamente a sensação das auroras da minha vida. Ele cita a rua São Miguel, a Praça da Pedra, a Rua Amaro Coutinho, vias da minha adolescência, lembranças vivas na minha cansada memória. Além disso o cronista destaca o poeta Radiel Cavalcanti, hoje lembrado por poucos: "Ao comentar este retrospecto da minha infância com o Dr. Márcio Roberto Soares Ferreira, servidor graduado do Tribunal de Justiça da Paraíba, homem versado nas letras, me lembrava este o nome do poeta da paz, do amor e da saudade, Radiel Bezerra Cavalcanti, que, em virtude da sua pobreza, morava em uma pequena casa e possuía apenas uma cama, um fogão e alguns livros. Por isso, sua casa era conhecida como O Tugúrio do Poeta. Esclarece-me ainda Dr. Márcio que o poeta Radiel conseguiu publicar nas tipografias dos amigos os seguintes livros: Cardos, Lótus, Cajueiros dos Bailados e, acrescentando ainda, um romance não publicado intitulado O Estalajadeiro da Ilusão. Realmente, um nome que não poderia faltar, ele, Radiel Cavalcanti, moreno claro, estatura média, rosto oval e de cabelo estirado, com uma pequena trunfa.Certa vez, Radiel, ao chegar ao nosso pequeno campo de futebol, subiu numa pedra, abriu os braços e de Castro Alves recitou:

- "Estamos em pleno mar."

Justo destaque do Desembargador di Lourenzo. Conheci Radiel e mais de uma vez conversei com ele no Ponto de Cem Reis. Sempre o assunto era a dificuldade de editar seus trabalhos. A Cidade deve a ele uma homenagem também. Não precisa ser uma estátua, mas uma nova edição da sua obra. Lau Siqueira que nos leia e nos ouça.

A festa da Padroeira do bairro, Monte Castelo, aqui em Cabedelo, onde moro. Instalaram um pequeno parque de diversões, tão parecido com os das auroras da minha vida: carrossel, roda- gigante, balanços, tiro ao alvo e algumas "inovações" que ainda não existiam na Festa da Conceição da Rua São Miguel, nem na Festa das Neves daqueles tempos. Uma delas me chamou mais atenção porque era a mais freqüentada e durante a manhã, tarde e noite. Era uma barraca toda fechada, escura e com só uma entrada, onde crianças e adultos disputavam a vez de usar esses modernos jogos eletrônicos: guerras interplanetárias e lutas orientais diversas. Só um era futebol. Imagino que aqueles brinquedos são muito úteis para estragar a visão, imbecilizar a mente e evitar que a meninada coma um cachorro-quente, chupe um picolé ou veja as estrelas do alto da roda-gigante.

Também li que o Dia Municipal do Rock foi instituído através de um projeto do Vereador Flávio Eduardo (Fuba). De imediato chegaram as lembranças de Zezita e Breno Matos sendo aplaudidos no Clube Astrea ao ganhar um concurso dançando rock. A professora atriz e o escultor professor, garotões ainda, deram show com suas acrobacias dentro do ritmo, na época alucinante, bem à moda de Elvis Presley. Não conseguia aceitar nem praticar aquela forma de dança, mas achava interessante e até me balançava um pouco, mesmo com a preferência para um bolero ao sabor de um cuba-libre.

Mas também li uma notícia de um pessoal jovem fazendo teatro, assunto que sempre me transporta para os felizes tempos do Teatro do Estudante da Paraíba. Vale a pena ler a matéria de Maria Zita Almeida na íntegra, que comprova nem tudo estar perdido:

Grupo Cariri Teatral estréia amanhã, no Sesi, o espetáculo ‘O Touro Imperador’

O Grupo Cariri Teatral, da cidade de Cabaceiras, estréia amanhã seu primeiro espetáculo, O Touro Imperador, da autoria de Paulinho de Cabaceiras. Doze atores mostrarão ao público, às 20h, no Sesi, o que aprenderam durante três meses de aulas teóricas e práticas no Curso de Teatro, voltado para interpretação ministrado pelo teatrólogo Josimar Alves do Grupo de Teatro Heureca do Sesi da Paraíba.
A encenação é uma comédia da segunda metade do século XX que narra a importância de resgatar a cultura da Vila de Pai Mateus. Os atores estreantes são Arieline Nunes, Bárbara Barros, Bruno Lira, Hermínio de Assis, Iraci Nunes, Izabel Cordeiro, Juliana dos Santos, Mariana da Silva, Natália Nunes, Paulinho de Cabaceiras, Patrícia de Farias e Robéria Mendes. Depois da estréia, o Grupo Cariri Teatral se apresentará em Boqueirão no dia 19, em Monteiro no dia 28 e em Campina Grande no dia 29 às 20h no Teatro Municipal Severino Cabral.
O autor do texto, Paulinho de Cabaceiras, é poeta, compositor e historiador com vários cordéis publicados. Ele também é um dos membros fundadores do Instituto Histórico e Geográfico do Cariri Paraibano e correspondente da Academia Mageense de Letras do Rio de Janeiro.
Já participou de alguns filmes como a minissérie O Auto da Compadecida, Canta Maria com direção de Francisco Ramalho e o inédito Romance, com direção de Guel Arraes. Atuou também no documentário “Cabaceiras” de Ana Bárbara. O figurino do espetáculo O Touro Imperador é do teatrólogo campinense Antonio Nunes e a direção é de Josimar Alves.

www.eltheatro.com

segunda-feira, outubro 08, 2007

RECUERDOS


- Os homens lá em cima de vez em quando cismam em me pregar peças. Desta vez porém, foi uma bela surpresa. Descobri um parente distante, ou melhor fui descoberto por um primo, melhor dizendo, nos descobrimos. Sei da sua existência em terras paraibanas mas ainda não houve tempo hábil para nos conhecermos pessoalmente.
Trata-se de Edinaldo Chaves, senhor do Engenho Bulhões, na Paraíba, pessoa que à primeira vista me parece ser do maior dinamismo, e de imensa grandeza de coração. Sabedor que o nóvel parente se dá, como eu próprio, ao luxo de escrevinhar umas poucas linhas pedi-lhe autorização para a devida postagem de um de seus Recuerdos neste humilde Blog. Eis sua resposta: "Hugo, estás autorizado a consertar os escritos desse primo metido e publicá-los. Afinal a responsabilidade de transformar esse matuto em cronista é toda sua. Abraços do Primo Edinaldo." Muito bem, Primo Edinaldo, acredito na imaginação que anima o contador de histórias que na realidade vosmicê é.
A crônica já chegou pronta. Assumo inteira e total responsabilidade.H.C.

O DIA EM QUE À REVELIA DA PROTEÇÃO DE TÊMIS, O JUIZ DE GOIANA FOI JOGADO NO LIXO "

EDINALDO CHAVES

Falamos de um tempo, onde os homens vestiam casaca e usavam cartola, estamos em Goiana ano de 1856. O poder era disputado por duas lideranças, de um lado o Sr. Barão de Bujary, do outro o Sr. Barão de Goiana. As eleições tinham seu palco nas Igrejas lugar de votação, onde apesar do sagrado muitas vezes ocorriam invasões armadas.

Como hoje, nem sempre a magistratura se mantinha isenta, havia figuras passionais, e foi o que ocorreu. O juiz de Goiana pendia para o lado do Barão de Goiana e não economizava esforços para ver Bujary derrotado. As ações do magistrado não passavam despercebidas aos sinpatizantes de Bujary, que num momento de incontida euforia disse:

- "Se nós não perdermos essa eleição, vou mostrar a esse metido como se respeita o cargo." Certo cidadão goianense presente a essa reunião em casa do Barão se pronuncia dizendo:

- "Comendador, esse Juiz precisa é de uma lição. Não é pouco o que tem feito ele para nos prejudicar e agradar aos seus."

- "Peço calma, responde Bujarí. Afinal o homem é autoridade, não convém precipitações, mas caso saiamos vitoriosos, o que pedirem eu faço," afirma categórico o Barão.

Dia de eleição, corre corre, corpo a corpo, naquele tempo já havia isso, lacram-se as urnas guardadas sob os olhos mudos dos Santos da Igreja do Rosario e claro de guardas de ambas as facções devidamente armados a se olharem de esguelha e prontos para tudo.

Urnas abertas votos contados, vitoria de Bujary. A comemoração nas salas do solar do barão correm noite a dentro, o vinho é servido à farta, quando em dado momento alguém se pronuncia:

- Comendador, e o juiz? O sr. disse que o que fosse pedido seria feito.

- Eu disse, responde o Barão, mas peço que não exagerem no castigo, afinal é um juiz.

O povo eufórico dirigi-se a casa do magistrado onde no meio da noite o arastam para fora, colocando-o num saco o qual é atirado à carroça do lixo e com ele passeiam pelas ruas a gritar:

- "Olhe o Juiz corrupto! Vai pro lixo!

Foi um desastre. Nem a deusa TÊMIS protegeu o infeliz magistrado. Pela manhã o Barão soube do ocorrido mas já era tarde. Sua Excelência desmoralizado, pediu remoção do cargo.

domingo, outubro 07, 2007

STANLEY BARD em ASSASSINATO NA ALAMEDA 100

Conto policial de VALDEZ JUVAL

Ele chegou cedo ao escritório naquela manhã. Não havia passado bem a noite, devido não só a insônia costumeira como também pelas preocupações com o “caixa” que teimava em permanecer vermelho. Havia abandonado um pouco o trabalho e o dinheiro estava curto. Estendeu o período de “férias” após a solução do último caso que esteve trabalhando.

Exagero... Exagero mesmo... Gastou pra valer!... Também a gata que lhe ajudou a gastar a grana!... Foi tudo sensacional! Valeu a pena!

Deixou a porta da ante-sala aberta, já que a sua secretária ainda não havia chegado. Poderia de sua poltrona observar se alguém entrasse.
A parte externa ficara apenas na divisória de vidro com o belo letreiro que mandou colocar:

"STANLEY BARD – Detetive Particular".

Apanhou o jornal deixado pelo zelador por baixo da porta e levou para a escrivaninha. Passou a vista nele e se deteve no Caderno de Notícias Policiais.
Ali estava a reportagem completa da manchete escandalosa da primeira página:

“ASSASSINATO NA ALAMEDA 100”.


Braz Luccovino estava morto. Segundo deduções preliminares, ele reagira um assalto na entrada principal de sua mansão, naquela madrugada. Fora encontrado com um revólver na mão e sinais de luta corporal certamente usando também a arma.

A pergunta principal, óbvia e ululante era quem o matou.

Quando começou a se interessar pela leitura, sentiu a presença de alguém diante da mesa. Levantou a vista e cumprimentou, pondo-se de pé.

- Senhora...
- Martha... Martha Luccovino.

Não precisou dizer mais nada. O seu retrato estava ali, à sua frente, nas páginas do jornal.

Formosa... Exuberante... Basta?

Mas era muito mais. A mulher esculpida nos mínimos detalhes. Agora, de corpo inteiro, diante dele. Conteve-se, se apresentou e convidou-a a sentar-se.

A Alameda 100 fica na parte leste da cidade e do alto, proporciona para todos os habitantes da área, a linda vista do mar que quando na maré cheia quebra suas ondas nas pedras das encostas.

Uma renque de árvores de lindas flores e de frutos comestíveis cobre toda área. Por traz de cada muro alto, residências suntuosas, de arrojadas linhas arquitetônicas.

O palacete da família Luccovino é destaque não só pela disposição como foi construído como pelo grande zelo como é conservado e o muito bem cuidado jardim com grama e flores tropicais. Também se fala que todo o condomínio era protegido por forte esquema de segurança, com instalação de modernos detectores eletrônicos.

Foi com a certeza de que nada poderia lhe acontecer que Luccovino, naquela madrugada, levantou-se para verificar o que acontecia na direção dos portões de entrada da mansão.

Armou-se e sem querer acordar a sua mulher, de mansinho, saiu do quarto, descendo as escadas com toda cautela.

Martha estava querendo...

NOTA- O espaço é curto. Vamos suspender por aqui. Prometo continuar na próxima semana. É como novela: Quem matou Braz Luccovino?

JP 071007

sábado, outubro 06, 2007

DURANTE A MANHÃ ME DILACERO


EVERALDO VÉRAS

Confesso ao Pai Eterno que me quedei na prisão, reservado, mutilado, não tenho forças nem capacidade para resolver as perturbações, e cicatrizar as feridas. É peso demais para mim, eu, humilde, reles, desprotegido pecador. Suplico misericórdia, não bastasse invoco a boa vontade do Companheiro São Francisco de Assis, um sofredor paciente. Já fiz centenas de preces, cada uma mais fervorosa do que a outra. Não recebi benefício. Mas insisto. Insistirei.

Implorarei até o dia em que eu for derrotado, e tudo terminar. Amanhã? Não imagino a hora, não sei quando.

Oh, Senhor, tenha compaixão! Não há lugar para nova provação. Basta. Reconheço que a viagem está perto de acabar, cumpri o dever. O que tinha de ser feito, foi feito, e pouco sobrou.

E ainda suplico perdão se fui tão ruim. Fui?

mever136@uol.com.br



quarta-feira, outubro 03, 2007

RECUERDO 26 - O CICLONE - PRIMEIROS TEMPOS NO RECIFE


HUGO CALDAS

A Pensão de Dona Maria era um casarão antigo na Rua da Concordia. Sobrado com primeiro andar, o que lhe conferia uma aparência nobre, há muito perdida na poeira do tempo. Dona Maria, a proprietária, simpática senhora já entrada nos anos, era dona de um semblante que fazia ver seu passado de muitas aventuras e incontáveis paixões. Tinha uma sobrinha muito da insossa, sem graça, mesmo. Nunca a ví em companhia masculina, seja amigo ou namorado. Soube mais tarde, que morrera de maneira misteriosa. Suicídio?

Dentre todos os hóspedes, nutria Dona Maria, uma suspeita e mal disfarçada preferência por Valter "Margarida" meu colega da Panair, a quem carinhosamente, ela chamava de "Vado". Havia sempre uma comidinha melhor para ele...

- "Quere óvis, Vado"?

E assim ia nosso Margarida comendo omeletes enquanto o resto se contentava na dureza do feijão com arroz e carne de charque. Mas tínhamos galinha de cabidela aos domingos. No meio disso tudo, ainda havia um austríaco que mal falava o português e comprava umas comidas esquisitas porém deliciosas no Mercado de São José. Por onde andará o meu amigo Fritz?

O dia inteiro que Deus dava, os acordes de uma música, emanavam de um certo aposento e pareciam grudar na minha trompa de Eustáquio. Dizia assim:

- "Ela se enamorou de outro rapaz
Assim que o ciclone atingiu nossos destinos
Nenhum de nós pensou voltar atrás
Que orgulho, quantos desatinos
Eu bebi champagne em seu noivado
Traguei minha mágoa no peito sem rancor
Fui o primeiro a chegar à igreja e amargurado
Assisti o orgulho matar dois sonhos de amor
Numa noite, já muito tempo depois
Ela veio chorando
E chorando atirou-se em meus braços
E disse ganhando meus beijos
E disse ao sentir meus abraços
Sou eu que com fome de amor te vem procurar
Sou eu, sua voz doce e meiga com prazer ouvi
Sou eu que cansei de mentir
De fingir, de enganar
Sou eu que cansei de outra boca beijar
Pensando em ti."

Os sargentos do CPOR, Rawlson e Reginaldo este, meu velho conhecido de João Pessoa, eram os inquilinos do aposento musical. Era sabido que um deles sofrera uma história semelhante à descrita na música do Adelino Moreira. Daí a razão de escutarmos repetidas vezes a mesma canção na voz maviosa de Carlos Nobre, um habilidoso imitador de Nelson Gonçalves.

Era uma dor de corno sem precedentes.

Pior para mim, coitado, que não conseguia dormir, quando da volta dos pernoites da Panair do Brasil. Um tormento. O quarto dos sargentos, é óbvio, vivia sempre fechado. Às vezes, pela porta entreaberta, dava para ver uma descomunal "radiola" que além de tudo, possuia um rádio também enorme com "olho mágico" e tudo.

Comecei então a arquitetar um plano que pudesse me conceder a graça de um pouco de quietude. Eu precisava dormir, ora bolas. Já imaginaram não poder conciliar o sono, morto de cansado após duas noites em claro?

Numa dessas ocasiões que fazem o ladrão, aproveitei enquanto o sargento fora ao banho deixando a porta aberta. A radiola era dessas antigas, de válvulas enormes. Conjecturei que a troca de lugar de duas dessas válvulas seria o suficiente para um revertério monumental. Eu estava certo. Tão logo a alteração foi consumada o olho mágico do rádio ficou zarolho enquanto uma fumaça preta e mal cheirosa alastrava-se pelo aposento. Isso me permitiu, até ser descoberto o "crime," pelo menos uns quinze dias de sono tranqüilo. O sargento Rawlson passou uma temporada sem me dirigir a palavra. Ofendidíssimo.

Antonio Burity, outro hóspede, irmão de Socorro Burity, também minha colega na Panair. Socorrinho era a vivacidade, a alegria em pessoa. Morria de rir se uma pessoa dizia que estava com "defluxo" quando acometida de uma coriza qualquer. Grandes figuras, os dois Burity.

Às vezes a necessidade apertava e atrasávamos o pagamento. Como represália Dona Maria, qual mãe zelosa, recolhia as nossas roupas nos deixando apenas um pijama e o nosso uniforme de trabalho. Enquanto durasse a inadimplência ela seria a senhora absoluta das nossas roupas e conseqüentemente das nossas vidas. Não podíamos arredar o pé da pensão.

Para sanar de vez as nossas dívidas, Burity, emérito vendedor, apareceu certo dia com parte do caderno dos classificados de um jornal. Um grande negócio se apresentava no horizonte. Só faltava convencer Dona Maria a liberar seu terno de diagonal branco que ele usava para o trabalho ou quando saíamos esporadicamente para assistir a algum filme aliás, naquela época ninguém entrava nos cinemas do centro do Recife sem o devido paletó. Nos cotizamos e conseguimos o dinheiro da passagem. Tudo devidamente acertado, Valter Margarida conseguira convencer Dona Maria e lá se foi o nosso heroi para uma pequena e enigmática viagem pros lados das Alagoas.

Ao cabo de 15 dias bem contados eis que Burity retorna, montado no ouro.

Conseguira a façanha de vender 12 caminhões basculante para a prefeitura não sei de onde. Foi literalmente uma festa com direito a comidinhas e bebidinhas mandados buscar em restaurante fino da redondeza. A comissão recebida deu para saldar todos os nossos penduras e como garantia a qualquer contratempo, ele pagou dois meses adiantados para todos nós.

Assim era a generosidade do meu amigo Antonio Burity.

Houve também a época em que o revesamento começou na pensão. "Vado," ao ser convidado a integrar uma "república" com outros colegas de trabalho nos deixou. Ficamos meio desolados. Dona Maria coitada, quedou-se na maior prostração. Mas a vida deveria seguir seu rumo e para o seu lugar veio um sujeito de Maceió, de físico avantajado e voz estereofônica. Fora locutor de rádio, chamava-se Roberto Lamenha. Sobre a figura relato historinha edificante que juro aconteceu de verdade.

Nos seus tempos de locutor em tradicional rádio pernambucana, Lamenha, talvez por artes do tinhoso, trocava as bolas quando algo lhe desviava a atenção. Havia no comércio uma famosa geladeira cujo "slogan" era:

- "Gelomatic, o refrigerador que gela mais e custa menos, informa a hora certa" -

Pois bem, certo dia ele disse exatamente o contrário: "o refrigerador que gela menos e custa mais"... Praticamente uma porcaria de produto, convenhamos. Demitiram o Lamenha sem dó nem piedade. Fez ele então concurso para a Panair e passou. Foi onde nos conhecemos e ainda nos frequentamos até a presente data.

Outro hóspede bastante interessante era Sócrates, um simpático camundongo, catitinha de nada, que nos fazia companhia no quarto. À noite saíamos para um lanche em um pé de escada próximo, consistindo de um copo de caldo de cana com pão-doce. Sempre traziamos o restante do pão para Sócrates que nos esperava religiosamente, com os olhinhos brilhantes para receber o seu quinhão. Era o nosso companheiro mais constante. Inofensivo.

Nunca mais soube de Burity. Tive notícia de que se mudara para Picos, no Piauí, e que se houve muito bem ao se estabelecer com uma loja de autopeças. Deve estar rico hoje. Espero de todo coração.

Sobre os dois sargentos, tomei conhecimento bem mais tarde, que o Rawlson fora recrutado pela repressão. Nunca acreditei. Como poderia uma pessoa com a alma embebida de tanto romantismo se entregar à atividade tão aviltante?

É, decididamente os tempos eram outros, mesmo!

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terça-feira, outubro 02, 2007

Ela passa por mim com seu jeito assim misterioso...


ANCO MÁRCIO DE MIRANDA TAVARES

Estou sentado na praça, na maior calma quando ela vem lá de longe com seu andar gingado de quem está se equilibrando em cima de uma barca.

Não vem vestida excepcionalmente, me parece ter saido da maneira como estava em casa, tendo colocado somente a fita que lhe cobre parte da testa.

Vem de sandálias pretas de dedo, o que realça mais ainda seus pés brancos na escuridão do asfalto.Cada passo é um gingado, cada passo é um balanço, cada passo é um desses meneados de cabeça que o corpo empurra para o lado.Os quadris fartos balançam e os peitos soltos vão de um lado para o outro.

Vem distribuindo sorrisos como se fosse amiga de todos que conhece, pois não sabe que a maldade dos homens é grande e que cada um lhe olha com um olhar pecaminoso como se quisesse lhe devorar, entrar nas suas entranhas como ferro em brasa. Nada teme pois sabe que niguém teria coragem de mexer com ela.

Tem um corpo assim de quem pratica esportes de tão malhado que é, uns braços fortes e bem torneados de quem vive em academias brincando com os ferros pesados da vida. Nos lábios, veste um sorriso de quem não quer nada com ninguém ou de quem quer alguma coisa com todo mundo.

Eu nunca soube direito de onde ela veio.Chegou na rua, se apossou de uma casa, instalou seus poucos pertences e se sentiu logo a dona. Nunca na vida procurou saber se a casa tinha dono e os donos da casa pareceram não se importar muito com ela com aquele seu jeito de menina travessa.

Passa por mim, sacode um ligeiro sorriso e vai em frente como se a vida fosse apenas aquilo.Talvez nunca tenha parado pra pensar que por trás de seus passeios existe algo de muito estranho. É assim a menina de minha rua, a menina estranha dos cabelos negros e dos grandes olhos esverdeados...

www.ancomarcio.com

segunda-feira, outubro 01, 2007

CRÔNICA DE DOMINGO

A SOLIDÃO

VALDEZ JUVAL


Escrevi há algum tempo que gosto da solidão porque tenho mais tempo para conversar comigo.

Hoje tenho uma nova concepção do tempo e do isolamento.

Os anos se passaram e já agora, apesar de não ter me sentido só em qualquer instante, alquebro-me com o peso nos ombros, o cansaço da vida e a velhice chegando.

Nesta semana, em minha caminhada matinal, encontro Walmira com W como ela fez questão de se apresentar.

Pensem em uma senhora não virtual, com seus 64 anos, estatura baixa, delgada e físico de menina-moça.

Estava procurando uns parentes que sempre lhes fazia companhia nas andanças da beira mar. Culpava-se do desencontro pois se atrasara naquela manhã.

Falou da vida e quase que descreveu todo o seu passado. Ela sim, mostrou como era conviver com a solidão.

Perdera a filha, já formada, no seu pleno esplendor, há pouco mais de um ano. Ficara só pois era divorciada. E sozinha tem vivido.

Assim mesmo não tinha muito do que se queixar. Sexo?

Não era problema. De vez em quando selecionava a companhia e tinha quem lhe cheirasse o “cangote”, beijasse seus lábios, mamasse nas suas tetas e acariciasse a sua ...

Era prazer, gozo, sem necessidade de compromisso e a realização do ato. Depois, ficava só mas seria apenas pelo tempo que necessitasse.

Sexo atualmente quase não é praticado pelos jovens e os mais idosos, geralmente, não têm condições de faze-lo, disse ela.

Apesar de todo o seu entusiasmo não deixava de falar que gostaria de encontrar alguém para um novo casamento. Importava-se porém com a escolha, pois, embora não questionasse a idade, queria um companheiro que soubesse amar.

Afinal, Walmira poderia ser considerada uma criatura que se preocupava com o insulamento?

Para concluir, não formo opinião. Cada pessoa faz o seu entendimento.

Pelo que me lembre, Francis Bacon disse que “A pior solidão é não ter amizades verdadeiras”.

Já Henri David Thoreau escreveu que “Jamais encontrei companheiro que me fosse mais companheiro que a solidão.”

”A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais”, disse Arthur Schopenhauer e Henri Lacordaire afirma: “É a solidão que inspira os poetas, cria os artistas e anima o gênio”.

Será que a solidão deve ser tão exaltada assim? E o amanhã?


Valdez Juval da Silva é Promotor Público da Paraíba e um dos fundadores do Teatro do Estudante da Paraíba.
valdez_juval@hotmail.com